<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-35757927</id><updated>2011-09-05T20:40:36.772-07:00</updated><title type='text'>Caixa Negra</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://negracaixa.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://negracaixa.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>JMM</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14193583714694419729</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>20</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35757927.post-8943772396406638903</id><published>2008-04-15T13:19:00.000-07:00</published><updated>2008-04-15T13:21:05.270-07:00</updated><title type='text'>O ÚLTIMO DEGRAU - 02.06.2007 a 06.06.2007</title><content type='html'>Sentado no cadeirão de madeira que se instalou na varanda da casa dos Missionários Combonianos, faço uma contemplação emotiva da rua larga, irregularmente alcatroada, mas airosa, sem falta, em partes destroçada por raízes de acácias irreverentes, que, na aflição escura e rarefeita do interior da terra, removem com violência e estrondo lento o cimento que as oprime. É esta a minha última noite em Moçambique! Tudo o que começa acaba. Não nos consolam essas teorias primárias da filosofia grega, segundo as quais tudo se gera por tudo, o que há sempre houve e há-de haver, não existe efeito produzido por uma só causa nem causa que produza um só efeito. O delicado cesto de vime onde guardamos os sentimentos é muito menos abstraccionista e adopta uma estreita visão da universalidade. Sabe, e talvez esteja certo, que não se repetem os magníficos momentos passados, nem se transformam noutros semelhantes. É por isso que as almas choram, por se despedirem da felicidade. Paga-se com a dor da despedida a alegria da chegada e da estada, é uma fatalidade da nossa condição. Lembra-te que o bom e o mau, a tristeza e a alegria, o amor e o ódio, são duas faces da mesma moeda, que se alimentam incessante e mutuamente, pois cada uma pressupõe a existência da outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a minha última noite em Moçambique, mas o adeus começou há uma semana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É Domingo. Tratando-se do último fim-de-semana nesta Terra, decido percorrer a cidade a pé. Fazer uma caminhada longa e extrospectiva, proceder àqueles estudos observatórios nos quais damos connosco a reparar nas imperfeições dos edifícios, na profundidade e significado de momentos banalíssimos, no chilrear beijoqueiro dos pássaros, na singularidade das pedras, nas pitorescas conversas dos transeuntes. É dia de mercado em Nampula. Desloco-me às imediações do mesmo e sou detido por uma curiosa livraria de rua. Num lençol violeta de tecido sintético estendido no passeio, um distinto alfarrabista gere trinta livros, os diários e alguns semanários. Expõe muito do conhecimento disponível nesta cidade, onde não existe um estabelecimento comercial dedicado somente à venda de livros. À volta do pano, junta-se uma reduzida casta de interessados, literatos, porventura intelectuais, como se diz. Paro, deito uma vista. Mas no momento em que me debruçava para analisar um compêndio de provérbios macuas, os ouvidos detectam um solene e erudito diálogo. Dois homens, um jovem e outro de meia-idade, encontraram naquela livraria o lugar ideal para discorrerem sobre assuntos de política social com a maior acuidade. O mais velho, numa professoral entoação “Hoje em dia, tem muita gente a ir para a França, Alemanha e toda a Europa.”, o mais novo, assentindo à constatação e querendo arrimar a sua sabedora embarcação, “É verdade, pá, e África do Sul também.”, e o professor, “Não, eu estava a falar da Europa.”, e o aluno, “Sim, sim, Europa, como Suécia e Canadá”. Tratada com acérrimo vigor estatístico e perfeito rigor geográfico a questão da emigração, importou nessa ocasião reflectir e proferir larachas pertinentes sobre a migração. O professor, “E também tem muita gente a vir do mato para as cidades.” O mais novo, que nesta altura já tinha reconhecido a superior cultura e informação do seu interlocutor, indagou, semicerrando as pálpebras e fazendo ares de quem prepara uma questão relevante, “Acha, nesse caso, que podemos falar de fuga de cérebros?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuei a caminhada. Deambulei pelo mercado, onde se vende tudo quanto existe. Rádios e telefonias, capulanas e vestidos, sapatos e peúgas, cintos e fitas, cadeiras e aparadores, sofás e cortinados, sorrisos, sonhos e ilusões, como sempre acontece nas feiras dos pobres. À saída, sou interpelado por um polícia que, arrogantemente, me solicita o passaporte. “Ó senhor polícia, o passaporte está em casa.”, “É pá, você não sabe que tem de andar com o passaporte?”, “Tem razão, mas vim só dar uma volta, e não me lembrei.”, “Então vamos ter que resolver isto…”. Enquanto me sugeria que o corrompesse com 3 ou 4 euros, punha a cabeça numa girândola para detectar algum transeunte menos conveniente àquele momento. “Olhe, nem trouxe carteira, para lhe dizer a verdade”. Quando mentalmente decidia se havia de ir até à esquadra com o distinto agente ou ceder e alimentar de vícios aquele miserável espírito, surge um aluno que me identifica com amizade, demove o polícia, e sigo em paz. Há um provérbio repetido por estas paragens segundo o qual o cabrito come onde está amarrado. E sabe bem ouvir as legitimações envergonhadas daqueles que dizem “Se não for eu, são os outros.”, “Eles também roubam, por isso…”, “De outra forma um gajo não se safa.”, etc. Aldrabar, mentir, corromper, cunhar, burlar, influenciar e por aí adiante, ainda se suporta, mas encontrar nisto virtude ou fatalidade, inteligência e orgulho, isso é que tresanda a torpeza imunda. Ou alguém duvida que por trás do esquema e do negócio conspurcado, das cunhas e das influências, da subtil privatização do interesse e bens públicos estão as crianças pobres, a morrer de fome, os doentes ignorados e os injustiçados? Mas o Homem convenceu-se de que os seus pequenos pecados não afectam ninguém e de que as suas virtudes, isoladas, não tornam o mundo melhor. E perante o algoz sou eu, o acusador, quem pede justiça e, à frente, solicito a minha execução. Suma estupidez, Maior hipocrisia!              &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois dias antes da partida, desloquei-me ao orfanato das irmãs da caridade. São sessenta ou setenta crianças, algumas doentes, outras, simplesmente abandonadas, excluídas. Era aqui que vinha quando, desesperado com os resultados da minha passagem por Moçambique, procurava um significado para estes tempos. E, sem dúvida, o sofrimento das crianças é a única injustiça completa, o último reduto para amolecer a maldade e destronar o desalento. Entro no berçário e uma das irmãs atira-me para o colo uma criança de meses. Esquelética, pele engelhada, baça, pendurada nos ossos, olhos arregalados e cabelo enfraquecido. “Trouxeram-na ontem, foi abandonada pela mãe. Está muito mal, mas vai viver, com a graça de Deus”. Foi este, e não outro, o momento mais relevante da minha estadia em Moçambique. Foi à procura dele que vim, na esperança de ter junto ao peito, num soluçar descompassado e lânguido, o ser humano mais indefeso do mundo, e lembrá-lo para sempre, receber a certeza inquestionável de que vale a pena viver. Canso-me de vos ver correr, acredito de vos ver acreditar, dou comigo neste limbo onde franzo o sobrolho àqueles para quem tudo é acaso, pois tanto acaso é acaso a mais, e sorrio complacentemente perante aqueles que vêem no mal a liberdade dos homens e no bem a mão de Deus.      &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei pelo mercado, uma última vez. Comprei as bananas, mas não me despedi dos miúdos. Não criei mais do que uma relação comercial com eles. Dou-vos fruta e, em troca, dais-me leveza de consciência. É isto que procuramos. Dizia-me o Arlindo, em tempos, “As pessoas têm uma boneca sem pernas, e toca de mandá-la para os pobrezinhos de Moçambique”. Esta postura face à pobreza, tão cara para nós. Miserável daquele que se engrandece por dar aquilo que lhe não faz falta! A verdade é que nós, humanos, nos perdemos em algum momento da história, ou, talvez melhor, ainda buscamos a nossa humanidade. Hodiernamente, os referenciais valorativos situam-  -se na verificação do não ser. Ninguém pretende ser bom, mas apenas não ser mau, nem ser justo, mas apenas não ser injusto, nem ser excelente, mas apenas não ser mentecapto. É a axiologia do negativismo, em que o ser se desvaloriza e o não ser se enaltece, “Desde que passe…, só quero é que não se drogue…”. Alguns entre nós pensam que se definem por quanto fazem. Enganam-se. O nosso valor determina-se pela subtracção daquilo que fazemos por aquilo que se pode, legitima e razoavelmente, esperar de nós. Quando o resultado desta operação for positivo, poderás, sem vergonhas, finalmente, respirar o ar, pois já o mereces.            &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Último dia na Faculdade. Depois da entrega dos exames, alguns alunos tomam a palavra para proferir dizeres sobre o nosso encontro. Tendo eles um percurso académico tão seviciado, bastou cumprir a minha obrigação para lhes alimentar a sede de justiça e equilíbrio, de seriedade e empenho. Afinal, a lanterna de luz ténue é um clarão na escuridão absoluta. Guardarei sempre com saudade amiga o tempo da nossa convivência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A caminho de casa, encontro o ancião de Gimo. Pergunto-lhe de onde vem. “Xi, eu vem de longe!”, “Andou quantos quilómetros?”, “É pá, andei 7 quilómetros”, “E demorou quanto tempo?”, “Demorei 15 minutos”. Gato escalfado tem medo de água fria, mas com presunto e ervilhas fica muito saboroso. Parvo sou eu por não ter compreendido que este povo não precisa de tempo e espaço para saber onde está e para onde vai. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, em casa dos missionários. Pela primeira vez, assisto à missa diária do final de tarde. O Arlindo agradece a deus a minha presença naquela casa e eu, interiormente, agradeço-lhe a ele em particular, e aos Combonianos em geral tanta amizade e consideração. A dedicação, a tolerância, o exemplo, tantos momentos de novidade e aprendizagem, enfim, uma dívida incomensurável que o credor não reconhece e o onerado não esquece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A liberdade só se atinge através do sacrifício. Tudo tem quem nada quer. Suponho que todos saibamos que não podemos mudar o mundo. Mas a verdade é que há entre nós quem tente. Mais uma vez, será necessário imaginar Sísifo feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já subi o primeiro degrau desta escada infindável. Antes de entrar no avião, olho para trás, respiro pela derradeira vez o ar húmido e tépido que paira bonançoso sobre esta terra. “Obrigado, levo-te comigo”.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fonte da preciosidade é a escassez. Por isso não devemos pretender ser eternos. O sorriso forte e os olhos rasos de água só encontram justificação na raridade ou unicidade do momento. Para se ser feliz é preciso ter consciência ou subconsciência de que um dia se morre e tudo acaba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adeus, Moçambique!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35757927-8943772396406638903?l=negracaixa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://negracaixa.blogspot.com/feeds/8943772396406638903/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35757927&amp;postID=8943772396406638903' title='15 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/8943772396406638903'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/8943772396406638903'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://negracaixa.blogspot.com/2008/04/o-ltimo-degrau-02062007-06062007.html' title='O ÚLTIMO DEGRAU - 02.06.2007 a 06.06.2007'/><author><name>JMM</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14193583714694419729</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35757927.post-757355889762261341</id><published>2007-12-19T17:09:00.000-08:00</published><updated>2007-12-20T00:58:47.736-08:00</updated><title type='text'>O Ângulo do Enfermo - 07.02.2007 a 31.09.2007</title><content type='html'>Perguntei-me, antes de escrever este texto, se deveria escrevê-lo. No início deste diário, se me recordo com precisão objectiva, era a fonte quem bebia a água. Mas depois o registo tornou-se público, há quem diga que lê, e compreende-se que o autor tenha mais cautelas. Não fosse este um veemente defensor das suas incongruências, incompletudes, defeitos e outras maleitas do espírito. Por isso, pode entender-se o receio de que esta historieta finde no ridículo choro da vítima, mas se isto não é mais do que um pedido de perdão…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há gente que só vê aquilo em que acredita. Outra casta, só acredita naquilo que vê. Alguns sonhos de olhos abertos ou pálpebras fechadas ao sonho. Um balde de justiça e verdade destila sob o calor próspero do verão sufocado por nuvens. A oftalmologia é ciência de pouca monta para explicar convincentemente este prodígio da cromática, esta fenomenologia estonteante através da qual o branco se convolou em negro, a paz em guerra, a certeza em dúvida. É a fraqueza do espírito e pobreza do coração, que à primeira adversidade se revoltam e exigem recompensa, afirmam sobre pés juntos que não merecem fortuna tão rançosa. Havemos de lamentar a incapacidade de alguns no tocante a compreender a metamorfose do objecto da visão! Não percebem que os contornos e as arestas, as cores e as curvas, as sombras e a claridade, tudo o que a visão alcança depende do ângulo que o espírito ocupa. Alguns perceberão, tarde ou cedo, que os olhos são servos manietados e esculpidos pelo córtex visual. E esses, convencidos de possuírem ciência maior, dirão num suspiro sobranceiro “Se pretendes ser rigoroso, nunca me digas o que está ali, diz-me apenas o que vês ali”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O despertador irritante sonoriza com vigor o raiar do dia. Mas a noite sonolenta já foi intensamente espertina. Os intestinos corroboraram um presságio assente segundo o qual “Alguma coisa não está bem”. O meteorismo exacerbado é tão irritante como evidente, pois o ruído flamante das vísceras é compassado por uma flatulência sinfónica. Os arrepios num dia de calor. Levanto-me e dirijo-me à sentina para exterminar as incertezas. Conta-se que uma criança pobre, cuja lhaneza não carece de averiguação, terá dito “ Ó mãe, não sei o que se passa, mas estou a mijar pelo cu”. Depois de três ou quatro descargas, chego à mesa do mata-bicho sem apetite e afadigado. Logo os bons amigos me recomendam arinate e fansidar, agressores eficazes das malárias mais recalcitrantes. Seguem-se as análises em laboratório acreditado, que estranhamente negam o diagnóstico tão cabalmente palúdico. Não há razão para alarmes, nem para arriscar. Meia dúzia de pílulas e cama durante dois dias. Até que o corpo se refez parcialmente, o suficiente para regressar à faculdade, às aulas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As melhoras foram como o Sol do Inverno e a chuva do Verão. Agora, quase a entrar em Março, chegam os enjoos, as náuseas, os pruridos anais, e outros incómodos com os quais o enfermo se não coaduna e dos quais não se gaba. “Toma mais estes catorze comprimidos que isso resolve- -se. Devem ser alguns parasitas que te andam a chatear”. Cumpro a rigor os conselhos de uma irmã, freira e enfermeira, que, segundo se diz, nos tempos de guerra pôs ao serviço de ferimentos e amputações tudo quanto se lhe podia exigir e ainda mais. Quem vem a estes lugares para trabalhar é chamado a ir além do que sabe, a deitar a mão a tudo e a todos, a fazer das tripas coração, a fazer alguma coisa de nada. Certa vez, em Portugal, perguntei a uma senhora de posses modestas o que pretendia ela fazer do meio quilo de petinga que acomodava num saco translúcido. “Vou fazer uma caldeirada para o meu homem!”. A voluntariosa mas franzina e canastreira sardinha, disfarçando os olhos baços, a figadeira decomposta, lá se fez passar por safio e raia, quem sabe por garoupa e cherne, entre batatas, tomate, pimentos e cebolas, até ser caldeirada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim cheguei ao final de Março, entre avalanches nauseabundas, tantas vezes inesperadas. Certa vez, enquanto explicava essa questão pertinente da qualificação em Direito Internacional Privado, “Esperem aqui um pouco, que tenho de ir ali dar um recado a uma senhora”. Decidi então pesar a minha elegância e reparei nos 68 quilos que eram 78 quando aqui cheguei. O bolo só se compõe definitivamente quando, no topo, lhe pomos a cereja. O ser humano razoável, quando atacado por dores e más disposições, percebendo que pouco mal nos pode intrujar quando temos 26 anos, diz “Isto logo passa”. Outros, felizmente uma cómica minoria, interpretam o mais leve padecimento como uma manifestação de doença, algo que merece tratamento. No seio destes, vive uma espécie ainda mais preciosa, assustadoramente grotesca, não fosse a amplitude do cavalheiro, quase quixotesca, que antes de balbuciar “Ai!”já está a abrir a enciclopédica médica para saber o quanto está mal. Ora, esta gente crê que uma dor de barriga é um sintoma de cancro no estômago, a cefaleia, um tumor no cérebro, um braço dormente, por causa da esclerose múltipla, uma arritmia antes da paragem cardio-respiratória. Iniciei este périplo com doze anos, com uma apendicite aguda que nunca tive, e hoje, catorze anos passados, pelo menos durante dois ou três dias, já tive boa parte das doenças fatais conhecidas pela ciência. De modo que, se não se pode pôr um alcoólatra na guarida de uma adega, muito menos se pode rogar paciência a um hipocondríaco agudo que perde 10 quilos em mês e meio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decidi ir ao médico. O consultório do respeitado clínico é uma pequena divisória de um laboratório de análises sito numa avenida destacada de Nampula. Consultei-o por 500 Meticais (15 euros), algo perfeitamente inalcançável para um salário mínimo nacional que não ultrapassa os 1200 Meticais. Mas sendo eu tão branco, tão bem posicionado nesta escala patrimonial, não tive nem vi problemas em despender o que a outros faz falta. No sufoco, já não fui tão farto em incendiados discursos sobre a repartição das riquezas, ou então convenci-me de que a solidariedade é bem mais do que um palavreado demagógico como os que envergo tantas vezes. Apalpações e perguntas de diagnóstico, e ali se sentenciou “Isso é uma ameba. Com estes trinta comprimidos, bebidos num copo de água açucarado para a boca não amargar, em breve estará como novo”. Certo homem estava corrosivamente perdido numa montanha elevada. Pretendendo saber como regressava à base, questionou um raro transeunte sobre qual seria o rumo que os seus pés cansados deveriam seguir. Informado, desconfiou do informante, mas seguiu o trajecto sugerido, e quando vacilava por dúvidas fundadas sobre o caminho que trilhava, sempre recordava que a suprema liberdade da escolha só está ao dispor daqueles a quem é oferecida alternativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegámos a Abril. Depois da proveitosa consulta, saudei esperadas visitas de Portugal. E foi então que entre as desmedidas emoções dos que sacrificaram tempo e dinheiro para estarmos juntos, disparou o alarme “Estás mesmo magro, pá.”, “Devias vir connosco para Portugal.”, “Estás mesmo acabadinho.”, ou prognósticos ainda menos razoáveis e substancialmente mais assustadores. O tormento dos dizeres fatalistas só nos demove quando não estamos a viver o único sonho que tivemos em toda a vida. Mas foram tempos de felicidade inconsiderável. Lembro--me, em certa altura da vida, recordava com frequência a alegria e plenitude do passado, atacado por um saudosismo inato não escolhido nem desejado. E o sofrimento provocado por essa atitude era de tal forma acentuado, que escolhi, antes, certificar-me da felicidade actual. De modo que vivi estes momentos tentando esquecer as maleitas do físico, para aproveitar a palpitante certeza da alma. Em digressão, passámos pela missão do Alua. Uma médica italiana, missionária de alto calibre, empenhada e incansável, aconselhou-me a submissão das minhas gastas e liquefeitas fezes a análises parasitológicas. E foi então que se descobriu um parasita comum nestes lugares. Mais quatro comprimidos, desta feita deglutidos de uma só vez. Todavia, também não foi aqui que o intestino se acalmou, nem o físico se tornou robusto, nem a cura se encontrou. As visitas partiram, mais uma despedida sobre momentos em que a gratidão e a segurança se sobrepôs ao gozo de nos reunirmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que, alguns dias depois, passados três meses e meio sobre o início da enfermidade, detectei um líquido rubro na esbranquiçada porcelana da sanita, o sangue. Nesta ocasião, fui afectado gravemente por doenças de gravidade imponderável. Comecei por padecer de meningite, passando ao síndrome do cólon irritável, para depois sofrer do síndrome de Crohn, chegando à colite ulcerosa, até que tudo se convolou num avançado e metastaseado tumor do cólon. Perguntaram a um ilustre embaixador como era, enquanto pessoa, a sua lindíssima esposa. Este terá respondido perguntando “Comparada com quem?”. Alguns loucos, considerando-os com esta simplicidade, vêem e têm por real algo que outros não enxergam nem julgam existente. Se é um desvairado aos olhos dos demais, é, na sua óptica, o único lúcido, ou, pelo menos, o escolhido para ter acesso a certo tipo de informação, de perspectiva, de conhecimento. Pouco a pouco, é possível desconsiderar tudo quanto promana de um exterior ignorante, tão néscio e descontraído como a cigarra cantante nas tardes quentes de Setembro. E, assim, o louco afasta-se de tudo quanto o rodeia, isolando-se depois de se certificar que, nitidamente, ninguém pode compreendê- -lo ou acompanhá-lo na sua dimensão da verdade. Ora, muito de quanto é verdadeiro para gentes de honorífico fausto intelectual assenta numa inspiração, a qual não poderia ser demonstrada por um método que resguardasse em si qualquer rasto de científico. E se o método é o caminho do conhecimento, não há gnose sem passos. E saber que do exterior não provenha? E termos por certo aquilo que não vemos nem cheiramos, sentimos ou ouvimos? A tua pele só é macia porque lhe posso tocar? Se é evidente que há loucos e sãos, nenhum mal faz em crermos que tudo quanto embrulhamos na verdade é o espirro de um juízo tão probabilístico quanto relativo. É um excurso esfarrapado e insípido, mas a ele voltaremos um dia, para deitarmos luz a esse mistério profundo resguardado por essa dúvida inatacável, a qual se resolverá no dia em que percebermos se somos num absolutismo relativo, se somos em relatividade absoluta, ou tudo em simultâneo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chega a notícia bem aparecida de que a niclosamida, proveniente da França, é o fármaco eficaz para curar a enfermidade. A Elisabeta, médica amiga, concede-me o privilégio raro de aceder ao presumido santo remédio. Com gentileza, o Arlindo, sempre amigo e disponível, cede-me a carrinha para fazer os 400 quilómetros até à missão do Alua. Levo de boleia uma criança belíssima, com a pele negra iluminada por uns nutritivos tempos na companhia das missionárias combonianas. Ficou órfã muito cedo, depois faminta, e foi recolhida pouco antes da morte. Ela está longe da complexa gramática portuguesa e do rico pomar de vocábulos lusos. Cansado do silêncio fatigante da estrada, convido-a a cantar. A sua voz é agradável e infantil, o cantar imaculado e dedicado, a soberania inigualável das crianças pobres e mal amadas. Enquanto ela se deleita em cantares, penso com profundidade “Lá está o intestino novamente às voltas”. E a niclosamida de pouco serviu…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos em meados de Maio. Visito a casa de uma senhora. Jazida no chão térreo da sua palhota, embrulha-se numa capulana debutada pelo uso. Pergunto-lhe por que motivo está naquela prostração aterrante. “Eu tem malária, eu está mal, mesmo”. E, de facto, está. Ela e tudo quanto dela depende, os filhos, os netos, os sobrinhos e outros tantos. A isto acresce que ninguém lhe telefona diariamente de Lisboa para saber como evoluiu a sua débil saúde. Nem tem ao seu dispor cuidados médicos e medicamentosos elementares, no caso de a doença agravar. Na verdade, se morrer, as lágrimas choradas humedecerão a terra, mas não farão despertar o lamento do tenor mais incompetente do planeta. Confesso-me, foi com estranha indiferença, com lamentável repugnância que me afastei da sua enfermidade, temente de que outros males se abatessem sobre o meu, enfastiado com tanta miséria. Afinal, enjoado, atacado por náuseas e palidez repetente, vestido de receios infundados e roupa franca, já não sou tão benemérito, tão comiserado, tão profundamente emotivo e atento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos poucos, a perspectiva sob a qual observo este mundo move-se, envergonhadamente, Eppur si muove!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dirijo-me ao laboratório para reanalisar fezes, sangue e unira. A senhora insiste para que faça alguns testes a doenças venéreas, pois, na sua opinião, é muito provável que os meus males provenham de algum descuidado comportamento sexual. Insisto que o mal não pode vir daí, mas ela não se conforma. Venço eu, contra a sua desconsolada vontade de me auxiliar. Numa pesquisa mal cuidada e desprovida de rigor descobrem sangue oculto nas fezes. Na minha especializada opinião, confirmam-se irremediavelmente os prognósticos de um achaque que dificilmente ultrapassarei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decido visitar outro clínico, recomendado por um aluno interessado. O hospital público disponibiliza aos seus utentes a consulta geral e a especial. Esta última vale 300 Meticais, e dela está economicamente excluída 98% da população. Quando, no início da minha estada em Moçambique, li, no jornal, um impropério a respeito destas consultas, ajuntei-me ao eloquente cronista e vituperei sem piedade este sistema iníquo, em que o dinheiro se sobrepõe à doutrina da igualdade e fraternidade. Apressado, perpasso o labirinto hospitalar até chegar ao modestamente acolhedor departamento das consultas especiais. Faço a minha inscrição no guichet competente. A bem-parecida funcionária interrompe a digitação do trabalho académico para me atender. Agradeço-lha a gentileza. Preenche a minha ficha e, de imediato, cobra as pepitas devidas pela apreciação clínica. Entro no consultório. O médico, cubano, depois de uma conversa longamente intrusiva, de uma apalpação pormenorizada, pergunta-me “Conhece o HIV?”. E de facto, só já me faltava esta. Em Moçambique, estima-se que mais de 16% da população seja portadora do vírus da sida, pelo que a experiência do detective, analisadas as pistas, impeliu-o para o delito mais comum nestas paragens. Recomendou-me então mais um sem horizonte de exames destinados a despistar infecções parasitárias preocupantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando cheguei a Portugal, tudo não passaria de uma perturbação intestinal de importância reduzida, que um chorrilho de idóneos exames e vastas caixas de comprimidos acabariam por solucionar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só se pode sentir sozinho quem já esteve acompanhado. Segundo a regra, quem viu nascer não deverá ver morrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas são apenas desculpas, as que agora invento, tentando legitimar o egoísmo que me torturou nestes tempos. O medo, infundado talvez, mas alimentado na eternidade das horas de indisposição e de ignorância. Em todo o caso, o que mais me magoa foi a infame rotação do espírito, que, em certas alturas, me convocou para a intolerância, para o esquecimento, para o abandono dos fins e propósitos que me trouxeram junto deste povo. Desculpem-me, pois, por vos ter abandonado, por dá cá aquela palha olvidei o vosso sofrimento, miséria e tristeza. Fiquei e fui ficando, entre tantas dúvidas e receios, mas já não fui tão vosso quanto deveria. Lembro-me que, nesse tempo, dava frequentemente comigo a pensar na morte, na minha e na dos outros, e nunca me recordo de, entre todas estas, ter preferido a minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De que servirá morrer por um desconhecido se deus não existir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi assim que descobri o quão distante estive, estou e, quem sabe, estarei do momento perfeito, que idealizo desde cedo, esse minuto sublime em que me desprenderei de mim para te, vos, entregar a minha vida sem reservas, sem argumentação ardilosa e filosófica. Em boa verdade, o desprendimento e a entrega irrestrita pelos outros, negando a própria existência se assim for pedido, não se escreve em compêndios ideológicos de encadernação soberba. Pelo contrário, é simples, irracional, raríssimo e belo, chamam-lhe erradamente coragem, mas trata-se, verdadeiramente, do amor absoluto, e é isso que me falta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35757927-757355889762261341?l=negracaixa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://negracaixa.blogspot.com/feeds/757355889762261341/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35757927&amp;postID=757355889762261341' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/757355889762261341'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/757355889762261341'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://negracaixa.blogspot.com/2007/12/o-ngulo-do-enfermo-07022007-31092007.html' title='O Ângulo do Enfermo - 07.02.2007 a 31.09.2007'/><author><name>JMM</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14193583714694419729</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35757927.post-3097386052321369601</id><published>2007-09-01T12:01:00.000-07:00</published><updated>2007-09-01T12:03:41.820-07:00</updated><title type='text'>Acito-te Até que a Morte nos Separe! - 06.05.2007</title><content type='html'>Voltou a Gimo. Não é um qualquer regresso. É o retorno ao primeiro sítio onde experimentou este negro contentamento. Alvitra-se que não devemos revir aos sítios onde fomos felizes. Talvez tema jogar às costas o fardo de contemplar o passado e lamentar que tudo tenha transitado num ápice. Porventura não quer assimilar que, às migalhas, acorda do sonho lindo que isto foi. A contragosto enfrenta a verdade que o atormenta sem com isso se ralar: o tempo, o supremo e precioso bem, passa num alvoroço de tal monta que não é gente para perceber o pouco que já foi e o quase-nada que lhe resta. Mas regressou. Reviu a vereda ladeada de cajueiros e mangueiras, as leiras de mandioca e amendoim, as crianças lívidas e amistosas, enfim, junto à partida revive os momentos da chegada e tolha-se a saliva no goto, irrita-se a pele desgastada, perturbam-se as movimentos e altera-se a termodinâmica fisiológica: foi feliz aqui e voltou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É dia festivo em Gimo, com baptizados e casamentos. Engalana-se a comunidade para colher a fatiota formalista dos passos que, pacientemente, se foram convolando na essência da vida. Pertencer à grande família e construí-la, dar-lhe os seus elementos. Não admira pois que o ambiente seja um saudável rodopio em torno dos preparativos. Recebem-nos com a simpatia costumeira. O ancião, já prendido de amigo, dirige-se a mim e festeja a minha presença. Apresenta-me à sua esposa, aquela que outrora tinha anunciado a fuga do lar, se o oleado não surgisse rapidamente. A senhora é de bom trato e agradável, o que me leva a calcular que o nosso líder tenha exagerado quando lhe imputou tanto interesseirismo. Se calha pintou o quadro ainda mais sombrio para me condoer e impelir a dar-lhe os duzentos meticais para cobrir a casa. Não o censuro. Quantas vezes, desejando sermos perante os outros, teremos dito o que não era, teremos soltado um ai superior à dor, um lamento acima do sofrimento, um choro de falsa água, só para que os espectadores negligentes se lembrassem que existimos? O fosso entre o ser e o parecer é de tal ordem… A convivência é um grande teatro, com deixas e pontos, palco e pano, trajes e maquilhagens, canastrões e grandes artistas, tal como nas mais belas peças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os membros do clã apresentam-se em grande pompa. As farpelas mais bem tecidas, tudo a preceito, conforme exige a circunstância. Alguns solicitaram a confissão antes da cerimónia. É a praxe. Talvez pretendam rabiscar um interior puro antes de encetarem mais uma celebração de exaltação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As galinhas que haveríamos de almoçar ainda se passeavam pela terra batida. Entre correrias assustadas, debicam pacientemente grãos de terra, pesquisando cientificamente, distinguindo o nutriente do mineral, auscultando com investidas matematicamente dimensionadas o coração da crusta castanha. A galinha. Azafamada e medrosa, faz vénias para comer. Inclina a cabeça e aguça o bico, inflama-se quando perigam os pintos. No genuflexório do tanque pousa os joelhos gastos e lava roupa, nunca existiu alguém tão grande. O ajudante do cozinheiro, um jovem ágil, corre atrás de duas galinhas. Apanha-as e, sem malvadez ou requinte, irreflectidamente, sem pesar ou prazer, num gesto tão mecânico com este que manda o oxigénio invadir os pulmões, corta-lhes o pescoço com um golpe unitário. Em breve, o corpo rijo e musculado das aves misturar-se-á com a cebola e o óleo, será o tempo das reacções químicas e galvanização das moléculas, e, concomitantemente, a farinha cozerá no pote de barro enegrecido pelo uso até ser echima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na modesta capela de Gimo, inaugurada no dia 1 de Outubro do ano passado, onde estive e me encantei pela primeira vez com este povo, começam os baptizados. Nos primórdios, este simbolismo aquífero representava a conversão, a inclusão, o reconhecimento da presença, da existência do Deus. Mas nas geografias desenvolvidas quase tudo embotou numa festa de família, pretexto de comeretes e bebedeiras, precedida por uma cerimónia estéril durante a qual se asperge um anjo. Tem sido tal a romaria que já se deu o caso de num festim inundado de gente virtuosa só ter lugar junto de deus a criança que ainda não foi baptizada. Contudo, aqui, na longínqua e esquecida comunidade de Gimo, o baptismo é um acontecimento verdadeiramente belo. Por isso vão recém-nascidos e crianças, adolescentes e jovens, adultos e velhos, alguns com tempo e outros a tempo de a passo largo atravessarem a soleira da porta do cristianismo. Reparo num jovem que se prepara para sentir a água benzida escorrer-lhe da nuca para o lobo frontal. Há algo nele que me sugere um quadro mal pintado, mas às vistas primordiais não descortino o que seja. Percebo, então. O humilde e novo cristão enverga um pijama colorido como fato de cerimónia. Afinal, na estética atravancada e embaçada deste rapaz, as calças confortáveis e o casaco de botões castanhos, com gola de bico, este pijama de meia estação adquirido nas calamidades cumpre com rigor as vezes de uma veste faustosa. A verdade é que o azul-escuro salpicado de elefantes de tromba eriçada lhe caía a matar. Numa cidade do hemisfério Norte, certo jovem entrou na igreja trajando um pijama e logo lhe recomendaram psicólogos, anti-depressivos e fármacos para a confusão. No hemisfério Sul, outro jovem submeteu-se ao baptismo com finura em cadência trajando um honroso pijama de elefantes, e logo se alegou na festança que o Alcides Mukuvulo vinha muito merecido até!&lt;br /&gt;Aos baptizados seguiram-se os casamentos, a união com a pessoa escolhida ou recomendada, quem sabe imposta. Mas se a vida não é tantas vezes um conjunto de simbolismos que mais não explicam do que a nossa cândida intenção de manifestar quem não somos, desejosos que nos comprem por aquilo que gostaríamos de ser…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os seis futuros casais dispõem-se taciturnos junto ao altar, menino à frente da menina, mas sem se fitarem nos olhos. Dir-se-ia que toda aquela parafernália de adereços e rituais os envergonham. Não se pode ser modesto quando toca a exprimir alegria no momento da mais unificadora das uniões. Ou pode? Pode Silvério Sabonete, quando perguntado “Aceitas como tua mulher Eulália Norberto até que a morte vos separe?”, responder cabisbaixo, num sopro sumido, “Sim aceito.”, e manter o olhar perdido no granulado desorganizado do tosco chão sagrado? Se for comandado pelo interior e não pelo exterior, talvez lhe permitamos essa desfaçatez, talvez reconheçamos que a suma virtude é a verdade e não a prudência. Esta simplicidade envergonhada é um magnífico ímpeto para quem procura perceber em que parte da nossa vida está a essência e quanto de nós podemos rotular de sobejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passou-se a cerimónia e o ancião da comunidade solicitou-me que o fotografasse em poses reais com a sua senhora. “Aqui, junto ao carro, irmão!” Deliram quando lhes mostro o resultado milagroso da tecnologia no ecrã da máquina digital. No íntimo de quem não dispõe de um espelho, qual será o impacto da própria imagem registada para a posteridade? Nem se justifica a tentativa vã de percebermos qual seja, basta-nos tirar proveito da surpresa dos outros, que é algo em que somos exímios, quer para o bem quer para o mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentámo-nos para almoçar na palhota onde servem as refeições dos convidados e residentes ilustres. Desta feita, ao contrário da primeira vez, não me senti afectado pelas crianças esquálidas que circundavam o faminto casebre. Comi a galinha com refreio, mas por hábito, e não por imposição conscienciosa. Esta pobreza já não me dói como antigamente. As tragédias deixam de o ser quando não podem ser nossas ou quando já as contemplámos vezes sem conta, ora, o que fará quando estes dois requisitos se preenchem cumulativamente…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes da despedida, dirijo banalidades a um antigo membro da comunidade. “A festa estava muito boa! Devo dar-lhes os parabéns. E o senhor, já casou?”, “Eu já casou, mas se calhar para o ano vai fazer matrimónio.” Espantado com a precisão conceptual, tentei esclarecer, “Mas o senhor já é casado, ou não?”, “Sim, já é, mas também quer fazer matrimónio.”, “Bom, veja lá se isso não é um passo muito grande.” Ele espreitou discretamente o meu rosto e tornou a cabeça, que meneou na vertical, manifestando concordância e reflexão, para depois questionar, “E você?”, “Eu já fiz matrimónio, mas ainda não casei…”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35757927-3097386052321369601?l=negracaixa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://negracaixa.blogspot.com/feeds/3097386052321369601/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35757927&amp;postID=3097386052321369601' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/3097386052321369601'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/3097386052321369601'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://negracaixa.blogspot.com/2007/09/acito-te-at-que-morte-nos-separe.html' title='Acito-te Até que a Morte nos Separe! - 06.05.2007'/><author><name>JMM</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14193583714694419729</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35757927.post-2059444858793412809</id><published>2007-05-27T13:03:00.000-07:00</published><updated>2007-05-27T13:30:45.705-07:00</updated><title type='text'>O Corvo Engaiolado ou o Pardal Livre e as Irmãs da Caridade - 21.04.2007 e 11.05.2007</title><content type='html'>Somos o que fazemos é expressão usada e refeita, alterada e ornamentada, dita com compostura e aprumo quando pretendemos demonstrar onde chega a nossa argúcia, tanta e tão desenvolvida, que já compreendemos que há mais e menos na língua do que no nosso coração. Reclamamos, pois, a corporificação, bem dizendo, a exteriorização do espírito, do seu lado dourado e do negro, exigimos, assim, algo ao alcance da dimensão sensorial, que nos permita avaliar os demais, dizermos da sua bondade e da sua maldade. Porém, o percurso do juízo moral sério inicia-se no exterior, onde se fundamenta, apetrecha de imagens, cheiros e ruídos, de sabores e impressões. Mas depois caminha para o interior, onde descobre que afinal não somos o que fazemos, somos também o que gostaríamos de ter feito, de não ter feito, somos, surpreendentemente, as nossas boas intenções, muito embora, diz quem sabe, o inferno seja farto nesta espécie. A labiríntica reflexão, que só por imodéstia pode conhecer avanços conclusivos, leva-nos a ver que não somos um, mas vários. Perguntas-te, por vezes, quem és, afinal. Pergunta-te, antes, quantos és, afinal. Apenas o fraccionamento da existência, distribuída pelas circunstâncias, pela cronologia, pelos humores, permitirá apreender quem são aqueles que somos. Em verdade, só as crianças de tenra idade se aproximam da unidade, pois são especiais e superiores, só o morto a atinge, pois é nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As irmãs da caridade foram fundadas pela famigerada e beatificada Agnes Gonxha Bojaxhiu, conhecida mundialmente por Madre Teresa de Calcutá. Senhora de convicções comuns, comiseração para com a pobreza e indignação perante a injustiça social, destacou-se pela raríssima opção de vida, traduzida na ajuda, não aos pobres, mas aos mais pobres dos pobres. Crianças estritamente abandonadas, idosos absolutamente desamparados, doentes de HIV e tuberculose em fase terminal. Quanto mais desgraçado, mais irremediável, mais justificada a sua intervenção. Somou a tanta disponibilidade um voto de pobreza extremista. O hábito, umas sandálias, um prato de esmalte, um jogo de lençóis, e pouco mais. Nem saberei que dizer de tal escolha, pois, em primeiro pensamento, se o copo cai, parte-se e toda a água se entorna, mais valerá a vassoura e a esponja, do que segurar uma gota num dos estilhaços. E isto é evidente para quem observa o relógio através da razoabilidade economicista do custo-benefício, mas não se passa o mesmo para quem pressente profundamente numa vontade divina ininteligível, se perscrutada pelos cânones racionais humanos. Seja como for, a sua descendência leu junto à letra os seus desígnios e cumpre-os a preceito. E foi esta prole que me desafiou a ir à penitenciária de Nampula projectar um filme sobre a vida de Jesus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Julgo que o mestre de Petersburgo terá pensado que se podia conhecer uma sociedade olhando para as suas cadeias. Tendo sido Dostoievky o maior escritor de todos os tempos, a ponto de me apetecer dizer que antes dele se tentou escrever e depois nunca mais se conseguiu, até me amedronto de discordar. A premissa tem-me tirado horas de sono, todavia, parafraseando um querido irmão em plena prova oral na faculdade, “Sabe, reflecti muito sobre esse assunto, mas não cheguei a qualquer conclusão, não me ocorre mesmo nada que possa dizer sobre essa questão.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem sei que a escolha do filme se fez mais por critérios evangelizadores, do que por decisões baseadas no ajuste do fato a quem o veste. Todavia, não se pode negar que a vida de Jesus dava um filme, uma peça de teatro, um livro. Pois se nela há de tudo quanto faz bem ao imaginário humano, às nossas perfídias escondidas e ao sumo desejo de que, no fim, tudo acabe bem. Intriga, inveja, ódio, perseguição, nascimentos, mortes, amizade, fraternidade, para alguns, amor. O herói é bonito, boa pessoa, inteligente, complexo, eloquente, defende os pobres e os oprimidos. A isto se juntam milagres e ressurreição. Parecem preenchidos os requisitos para uma história magnífica, que agradará à maior parte e fará alguns mudarem para sempre o rumo da sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A prisão fica a cerca de 30 Km da cidade. O espaço carcerário está sitiado por uma rede alta e electrificada. Assemelha-se a uma escola técnica. Alguns barracões abandonados do lado esquerdo, onde teriam sido as oficinas, e do lado direito, colocados lado a lado, surgem cinco ou seis pavilhões estreitos e longos, as celas. Entramos no corredor central do território e paramos o jipe junto a uns guardas que, sentados, tagarelam sobre assuntos banais. Logo se viu que a ideia de beneficiar todos os delinquentes com a sessão cinematográfica seria impraticável. Seleccionaram alguns. Entrámos no pavilhão para montar a maquinaria. Um corredor estreito, talvez vinte celas de cada lado. Salvos os cheiros desagradáveis e indiferenciados, nada me devem se gabar com frugalidade as condições do lugar. Células individuais, cada uma com a sua latrina, o seu catre, nada de indigno, tendo em conta a função da casa e a estirpe do morador. Os assassinos, ladrões, violadores, e nem é bom saber quanto mais, iam entrando vagarosamente e acomodavam-se como podiam no chão. Senti um moderado e inesperado receio quando me vi rodeado por tanto malfeitor. Fiz um esquiço de sorriso e esforcei-me por saudar abertamente quem passava. Alguns surpreendidos e acanhados, outros mais abertos e risonhos, todos retribuíam os bons dias. Emaranhado nos fios do computador, projector e colunas, tentando direccionar correctamente a luz para a tela, nem me apercebi do que se estaria a passar na retaguarda. Mas depois de tudo preparado, virei-me para traz e não vi mais do que uma massa humana, negra, duzentas e muitas pessoas assentadas, enlatadas, fitando-me fixamente, esperando o começo do grande espectáculo. Não se faz esperar quem disso faz vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fita rodou sem parar e aqueles 400 e muitos olhos não desfaleceram, não quebrantaram quando o calor era já insuportável. A primeira manifestação sucedeu no momento em que Maria comunicou a José que estava grávida e este se revoltou, desconfiando da fidelidade da sua futura consorte. Entre risos de troça, lá se foi ouvindo “É pá, eli tem razão. Eli ainda não fez nada com ela!”. Quando Jesus nasceu, estes corações distorcidos voltaram a emergir. Entre vivas e algumas palmas, um deles bradou alto e bom som “Este é que nos diz a verdade!”, e os outros sorriram. Mais adiante, durante a crucificação, insurgiram-se alguns, mostrando a sua indignação pela condenação, flagelação e execução de um homem inocente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deslumbrado, gozei aquelas figuras. Homens de muitas idades, mestiços e negros, gordos e magros, culpados e inocentes, arrependidos e indiferentes, cada qual a viver no presente as consequências da conduta passada ou a incompetência do sistema judicial. Suponho que alguns terão tido medo, terão chorado, terão, na sua vida, sido capazes de mostrar a nobreza do seu coração. Mas um dia a circunstância surge, a necessidade aperta, o cérebro desregula-se por via de um processo químico ignorado e incontrolado. A formação já não seria muita, nada perde quem nada tem, a mão levanta-se, apropria-se, prime o gatilho, desfere a catanada. Entra-se neste ritmo e depois, como acontece com todos os vícios, é o cabo dos trabalhos para voltarmos ao hábito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo visto e revisto, chegou a hora de regressar ao ponto de partida, às celas, talvez com a recordação de um momento diferente, bem passado, quem sabe, mais à frente, análise de conceitos, ideias e princípios, cogitações férteis sobre o manuseamento do leme e o destino da expedição. Os presos ajudam-me, gentilmente, a arrumar o material que os serviu. Agradecem-me, e eu a eles, por estas duas horas de sonho e aprendizagem. Teremos tido, gostaria de acreditar, neste enredo de musselina ao qual chamam convivência, segundos raros durante os quais dois homens se entreolharam sem se julgarem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos encarcerados disse a uma das calcutas “Eu vai mudar a minha vida, irimã!”. No caminho de volta, a estimada freira contava esse episódio com um travo esperançoso e crédulo na laringe. Pensei, com ironia irreflectida, “…O máximo que te poderá acontecer é mudares de cela, se te portares mal…”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas cada um acredita no que quer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Permaneço refém de uma imagem de infância que, manda a honestidade dizer, não sei se é facto histórico e consumado ou o fruto de uma imaginação sedenta de simbolismos e orientações, sinais transcendentais, enfim, o resultado de uma desesperante e inesgotável vontade de perceber quem somos e onde estamos. Reza a minha memória o seguinte. Há cerca de vinte anos, fui com a minha avó paterna a uma mercearia. À saída, ter-me-ei oferecido para carregar um dos sacos das compras. No caminho, intrigado com estas questões da omnipotência e bondade divinas, perguntei “Ó avó, se Deus é tão forte, por que é que ele não mata o diabo?”. A minha avó, terá reflectido um pouco sobre a questão e respondeu “Porque o diabo também faz coisas boas. Agora, foi ele que te mandou levares esse saco.” Quem tem ouvidos, ouça, quem puder compreender, compreenda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhar para elas já seria recompensa suficiente, quanto mais estar junto ao maior expoente da existência humana, tocar-lhes no rosto, sorrir-lhes fielmente e pegá-las ao colo. A única desilusão que não tive nesta caminhada foi a criança africana, a mais pobre e serena do mundo, amigável e medrosa. Vê-los descalços, roupa encardida, olhos negros e fundos, a viva curiosidade...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As crianças, e estas em especial, são percentagem considerável da beleza da Terra. A sua superioridade é de tal forma evidente que não contempla discussão. Percebo agora Heraclito, percebo agora aquele que me disse, um dia, durante uma festa, “Sabes, de toda esta gente, aquele com quem mais me identifico é a criança de 3 anos”. Perpassou no ilustre filósofo e neste simplório confidente o desejo de se aproveitarem um pouco da grandeza dos petizes. Surpreendem-me, pois, esses que arreiam nas crianças com o pretexto de assim as educarem, quando facilmente se encontram adultos mais merecedores de sova e menos sensíveis às orientações e às palavras reparadoras. A menos que alguém tenha conhecido menino ou menina que merecesse mais as palmadas que lhe dão do que quem lhas dá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi assim que, alegremente, recebi o convite das irmãs da caridade para projectar o filme sobre a vida de Jesus a 300 crianças de idades entre os 5 e os 12 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrei no recinto onde se encontra o salão da paróquia e já lá estava, ansiosa, a multidão de querubins. Olharam-me com temor, sem a descrição que os impuros e argutos investem em tudo quanto fazem, miraram-me candidamente, algumas sorriram, outras recolheram o rosto com vergonha, outras, ainda, pasmaram-se apenas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo preparado. Iniciámos a projecção do filme. Passados alguns instantes, notei que a muitos muito do filme escapava. Para crianças que apenas dominam a língua macua, está mais acessível um coco agarrado à sua mãe de 4 metros, do que um filme falado em inglês e legendado em português. Pelo que me vi compelido a interromper periodicamente a viva locomoção imagética para lhes explicar o que viam e quanto diziam aquela senhora, este romano, aqueloutro carpinteiro. Crianças de má sorte! Estão numa escarpa e querem passar para outra, além do desfiladeiro, e a ponte que lhes servem é de estaca comida pelo bicho, paus transviados, enfim, um comunicador deficiente no geral, em particular com as crianças, o que dizer das que pouco português conhecem. Mas a verdade é que escutaram atentamente a minha voz, a explicação, as sugestões, os prelúdios, os prognósticos, enfim, a sua grandiosidade é tal que não olhavam para o lado, com receio de me desconsiderarem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Valeu que o filme era rico em imagens e música, mas comedido em palavras. Quando Jesus nasceu, um “Ahhh!” geral propagou-se pela sala, os sorrisos espalharam-se por todos os rostos. Mais adiante, a Paixão. Jesus está deitado sobre um tronco delgado que o atravessa de um braço ao outro. O centurião ordena aos súbditos que façam o prego perfurar a carne das mãos boas deste homem, e a cada estocada, estas meninas e estes meninos fecham os olhos, escondem a face, aturdidos de terror. Uma rapariguinha entra num choro convulsivo. Não me consigo conter e o riso que tentava trancar viola a fechadura, sai à porta e mostra-se, deixando as crianças espantadas. Não saberão, talvez, que me rio de felicidade por poder observá-las e estar perto delas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Beleza é escura, pequena, move-se lentamente, tem um andar privado e senta-se ao nosso colo se lhe conquistarmos a confiança. Depois do primeiro impacto, mantém uma expressão estranha, que nem é de felicidade nem de tristeza, pareceria reflexiva, não fosse a idade. Aninha-se, apenas, recebe as carícias que lhe dão e não exigiu, demora-se naquela pureza tranquila somente ao alcance de quem está em paz absoluta…&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35757927-2059444858793412809?l=negracaixa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://negracaixa.blogspot.com/feeds/2059444858793412809/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35757927&amp;postID=2059444858793412809' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/2059444858793412809'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/2059444858793412809'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://negracaixa.blogspot.com/2007/05/o-corvo-engaiolado-ou-o-pardal-livre-e.html' title='O Corvo Engaiolado ou o Pardal Livre e as Irmãs da Caridade - 21.04.2007 e 11.05.2007'/><author><name>JMM</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14193583714694419729</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35757927.post-6237010941951833337</id><published>2007-05-07T14:43:00.000-07:00</published><updated>2007-05-12T04:51:47.594-07:00</updated><title type='text'>O Último Embondeiro - 27.04.2007 a 29.04.2007</title><content type='html'>Se existisse um lugar onde pequenas casas de alvenaria, alinhadas a regra e esquadro, se dispusessem comodamente numa pequena porção de espaço. Todas em fila, bordejando uma estrada de terra com pouco mais de cem metros. As árvores espalhar-se-iam por toda a parte, a natureza viva e fresca embrenhar-se-ia com os pedregulhos embotados e cinzentos. E se este cenário estivesse envolvido por um concha aberta de pequenas e mastodônticas montanhas, penedos e fragas, tudo coberto de um tenro verde, despoletando no visitante e habitante a sensação de que a natureza nos quer bem e jamais nos molestará. E se existisse um sítio assim…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi preciso caminhar muito para chegar. Mais de 250 km, sempre por estrada intransitável. Buracos e crateras, desvios e poças, pontes descaídas, leitos de rio a arar no centro da via, explicando-nos o que foi preciso transformar para que este planeta nos servisse. E á medida que avançávamos mais nos distanciávamos do escol civilizacional. Para onde vamos, a electricidade ainda não foi domada, os telefones buscam em vão o sinal das antenas, a imagem colorida do televisor tardará em se arrimar. Mas chegámos, e não é permitido esquecer a magia que se desenha na alma do Homem que chega ao fim do mundo, ao termo da história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os gigantes monolíticos unem-se como se de siameses se tratasse. São o notável resultado de uma excitante e geológica gestação. Fazem a meia elipse das duas mãos abertas juntas pelos punhos, prontas a amparar. Árvores baixas e outra vegetação rasteira trepam incansavelmente os íngremes penhascos, mas nenhuma se atreve a atingir o cume, ou, pura e simplesmente, talvez as forças não cheguem a tanto. E nós, quantas vezes, artilhados de cordas e calçado apropriado, mosquetões e arneses, vacilámos nos últimos metros da subida? E a camélia branca, da qual se diz ser a beleza perfeita, esperava-nos impávida e serena. Todavia, é ciência de todos, o que custa não é a primeira metade do caminho, são os últimos passos, as estopinhas secam, nem para trás nem para diante, e aí está o cabo dos trabalhos para consolar o alpinista, pois “fez tudo quanto podia”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na casa dos missionários, um dos empregados, Discípulo de seu nome, envergava duas camisolas de meia manga. O sol faz o pino, nem zéfiro à vista, nem gotícula preparada para mergulhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passeámos por aquela viela desnivelada, pretendendo bom dia para toda a gente, cem metros para lá e os mesmos para cá. As casas coloniais dispõem-se em formatura disciplinada, respeitando algumas intrometidas de arquitectura mais recente. Os moçambicanos ainda estão penhorados pela betoneira lusa. Todas albergam serviços administrativos e poder local. Uma delas, com pouco mais de 30 m2, encerra o tribunal distrital. Cumpre a esta instância decidir as acções de valor reduzido e os crimes mais ligeiros. Pelo palácio da justiça escorrem o tempo do desleixo e do desprezo pela manutenção. Os salpicos de tinta sobejantes asfixiam agudamente e muito se batem para provocar a reacção das células de visão cromática, que nos concedem esse espumante luxo de vermos o mundo pintado. O juiz de distrito não tem, tal como, em regra, acontece no resto do país, o curso de direito. É, talvez, um homem de bom-senso, capaz de escrevinhar ou ditar sentenças. Terá certamente dificuldade em destrinçar o costume da lei, a tradição da equidade. Hoje injustiça, amanhã a solução equilibrada, como em qualquer digno Tribunal de Direito. Seja como for, não passou por aquela patologia pertinaz, fatal para os alunos da lei, que em muitos persiste até ao fim da vida, durante a qual, na fase aguda, só sabem que adoram Kafka e, numa perfunctória cavaca cafezeira, a expensas da fleuma dos interlocutores, dilatam-se com vocábulos mais onerosos do que o sucedâneo de caviar ou as ovas de sardinha enlatadas. Em suma, devem os moçambicanos também ficar gratos aos seus colonos por não terem sido capazes de dotar os mansos e submissos de instrumentos indispensáveis ao governo de um país. De modo que depois da debanda foi um vê se te avias como puderes, desde que nos convenhas. É esta perene lógica de vos trazer num simulacro frenético estagnante que, ontem e hoje, vos destrói. E a lástima é que vós pareceis respirar indulgência perante esse desígnio de copiosa iniquidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na casa destes amigos, um dos funcionários, a quem chamam Discípulo, cobre-se com duas tee-shirts. O sol está alto e sobranceiro, nem brisa se pressente, nem humidade se avizinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas pegadas depois, encontramos o Serviço Distrital de Educação, Juventude e Tecnologia de Lalaua. Segundo foi possível apurar, em todo o distrito, funciona um único computador... No muro do edifício, repousam alguns educandos, jovens ou técnicos, aguardando as benesses da luz, o primor da Internet, o servilismo vicioso do telemóvel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passamos pelo mercado, mini, conformando-se com o resto, no qual encontramos feirantes acomodados em cadeiras de porte ligeiro mas construção intrincada. Um tricô de canas de bambu, ponto de cruz, caseado à distância, todos esses emaranhados de fios e fiadas, embrenhados até tomarem a forma desse utensílio tão apreciado pelos cultores do descanso. Pelo seu aspecto tosco e a sua pobreza de material chamam-lhe, nestas paragens, Cadeira de Começar a Vida. Seria bom acreditar nesta filosófica e prospectiva designação, pois isso significaria que este assento pertence àqueles que almejam um futuro melhor. Bom seria, de facto, porquanto cada vez se apresenta mais árduo escavar e desencantar a materialização dos pilares necessários ao sustento de uma esperança condigna, que nos olha sem timidez e diz “Aqui me tens, ao serviço das tuas pernas e braços, ouvidos e boca, aqui estou eu, pronta a estimular indeterminadamente o teu coração”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num pequeno talhão cercado por estacas de madeira, jaz fenecida a campa de um régulo importante neste território. Ao seu lado erige-se uma árvore de corpo robusto, desfolhada, um desafio à estética. Representa a planta lenhosa mais excelsa das que caminham por este planeta. Se estamos na meta do mundo, na raia da história, é, provavelmente, o último dos embondeiros…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste reservatório da minha gratidão, um dócil homem, biblicamente nomeado Discípulo, usa o já mencionado duplo envoltório. O astro-rei resplandece com fôlego, nem aragem delicada, nem chuvisco prematuro se assoma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo o cálculo mais realista, terão morrido trinta milhões de negros só no transporte de escravos até aos locais onde era premente a sua precisão. É este o maior genocídio da história. Nem Incas, nem Astecas, nem Judeus nem outros que tal, ninguém se pode lamentar de tanta atrocidade como estes povos. Isto assim, esquecendo o relato das vidas dos sobreviventes, servos e seviciados durante gerações. Consta que muitos escravos comiam as próprias fezes para se suicidarem, pois na sua honra não cabia aquele enxovalho, contudo, nas suas forças também não entrava o poder da libertação. E se os pretos não tinham alma, por que motivo ela lhes doía tanto? A nós, descendentes do chicote e dos grilhões, cabe-nos, penso eu, recordar e amenizar os efeitos desta tortura. Todavia, por vezes, já não sei se legítima ou ilegitimamente, cruzamos os braços, fugimos do mais poderoso e destrutivo dos sentimentos, superior ao mais profuso amor materno e paterno, o poço onde explicamos quem somos, esse sentimento, ou essa, da qual havemos de falar um dia, noutros lugares, se a vida assim quiser, essa, a quem chamam Culpa. Não sendo castrando esse hábito de louvar os descobrimentos e o domínio sobre o mundo, havemos de reconhecer que quem herda os bens, herda os males, quem sucede nos direitos, sucede nos deveres, quem aceita os créditos, aceita as dívidas. E se nós, porventura, não devemos esquecer quem fomos, não podem estes viver perpetuamente atrofiados na vitimação inextinguível, que tudo justifica, a começar no ócio, mãe de todos os vícios, a acabar no ofício da mendicidade, pai da maior das humilhações. Levará tempo até que, aos olhos desta gente, eu perca a cor branca, e que eles, aos meus, se desfaçam da epiderme pardacenta. Todavia, já encetámos a longa caminhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ó Discípulo,” perguntou o Alberto, um bom amigo missionário, “por que é que anda com duas camisetes?”, inclinando para baixo a cabeça, “Ó Senhor Padre, é para não apanhar tanto Sol e ficar um pouco mais claro, como o Senhor Padre”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35757927-6237010941951833337?l=negracaixa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://negracaixa.blogspot.com/feeds/6237010941951833337/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35757927&amp;postID=6237010941951833337' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/6237010941951833337'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/6237010941951833337'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://negracaixa.blogspot.com/2007/05/o-ltimo-embondeiro-27042007-29042007.html' title='O Último Embondeiro - 27.04.2007 a 29.04.2007'/><author><name>JMM</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14193583714694419729</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35757927.post-2020672100991250800</id><published>2007-05-01T08:39:00.000-07:00</published><updated>2007-05-07T12:03:03.307-07:00</updated><title type='text'>Alberto ou le Saudosisme - 194… a 20…</title><content type='html'>“Rapaz, rapaz, ó rapaz, anda cá”. Foi assim que Alberto, já frágil mas no início da vida, se convenceu de que o seu nome, em português, era Rapaz. Bem se vê que para uma criança moçambicana, em 1940 e quê, muito longe de conhecer a língua do seu país, Rapaz pudesse muito bem ser a tradução do seu melodioso nome makhua, Alberto, para a língua da nação, o português. Provindo a convocatória de uma branca bem-posta e esposa de gente distinta, oficial ou sabe-se lá quanto mais, sendo o convocado portador de uma ternura inocente, nada nos resta senão acreditar, por ser verosímil, que Alberto cuidou, um dia, chamar-se Rapaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia 30.09.2006, entrei derreado na casa dos missionários, amassado no corpo e na alma. Encontrei então este velho homem, de diminuída estatura, corcovado, andar desengonçado e desfalcado nos dentes. Serviu-me cabrito com arroz, que, não obstante a fome, comi moderadamente e disfarçando a avidez, tal era a cerimónia que ainda me impunha, aquela fina relutância em sermos genuínos quando chegamos ao desconhecido. E, nessa noite, vi-o partir para casa, gozando do privilégio de usar um chapéu da selecção das quinas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dias correram, o acanhamento dissipou-se, e gradualmente fui entrando na cozinha, já não para beber água, já não apenas para requisitar pão e leite, mas para trocar palavras e comentários com este amistoso cozinheiro. Algo haveria de nos unir. Luto por compreender essa estirpe maquilhada que, assim, numa superficialidade arrepiante se deita a desprezar o futebol. Vivem, quiçá, alojados em mundos ininteligíveis de opiniões relevantes, fraseologia sibilina e concupiscente, põem-se no cimo da montanha quando até o sopé, vida tivesse, os rejeitaria. Masturbam-se, possivelmente, a decifrar os inextrincáveis paradoxos de Zenão, mas desconhecem que o Benfica é o maior clube do mundo. Pobre gente! “Ó senhor Alberto, qual é o seu clube?”, “Xi, eu sou do Porto. Do Porto, mesmo. Até chama-me Pinto da Costa”, “Senhor Alberto, já estragou tudo. Então você é o do Porto! Não sei se nos vamos dar bem…” E entre um sorriso benigno, um descer de pálpebras complacente, encontramo-nos, sintonizamo-nos, descobrimos, enfim, o primeiro elo de ligação. É este o inigualável poder do futebol, que mais nada possui: dois estranhos cruzam-se ocasionalmente, um pergunta ao outro qual é o seu clube, e conversam a tarde toda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este que agora vedes, corpo obsoleto e figura de pouca cobiça, foi em tempos extremo do Ferroviário de Nampula. Já nos tempos clube de destaque, ainda hoje os pelados da nação aceitam com alguma distinção os seus valorosos atletas. Ao meu Alberto, essa arte de pés valeu-lhe a equiparação. E ser indígena assimilado a português não era consagração de desprezo, antes ao contrário, tratava-se de honraria aplaudida, fonte de direitos, semente de estatuto e progresso pessoal. O prognóstico era, a este tempo, colorido, pedia aos lábios que se esticassem na horizontal. Mas o tempo passa. E quantas vezes ele despreza imperialmente as nossas mais repetidas e devotas preces de imutabilidade, de continuidade, de permanência? Só quem passou pelo estranho e insondável lamento, vertido na exclamação “Nunca mais serei tão feliz como fui!” poderá sopesar a tristeza profunda que encontramos no decaimento, no triste desprendimento pela própria existência. Olhámos para trás, o coração apertou-se, a sístole susteve-se, e pensámos “Mas devo continuar”. Interiorizámos o comando perceptivo e o sangue voltou, contra o seu gosto, a percorrer os seus caminhos. Seu pai não lhe permitiu o salto para o Ferroviário do Maputo, outro palco e outras luzes, outras esperanças e futuros, enfim, a história muito ouvida, “Podia ter sido um grande jogador, mas isto e aquilo. Jeito não faltava. Olha, ainda treinei com este, aquele e aqueloutro…”. O meu Alberto ficou, pois, remetido ao provincianismo futebolístico e, alguns anos passaram, a carreira findou, e dos campos da bola saltou para a cozinha de um distinto Sr. Dr., médico na cidade de Nampula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estima por esta gente ainda lhe estala crepitante no olhar, quando recorda esses tempos. “Era gente boa. Amiga de mim. Muito boa.” E, de facto, bom trato davam ao cozinheiro. Chegou a ir às Chocas, no Verão, e a gozar merecido descanso na época estival. E a Senhora, que, pelo visto, o instruiu com sucesso no mester da colher de pau, do condimento e do gostinho, da cebola e do alho, do azeite e das ervas, do especial travo lusitano que se entranha no lácteo cabrito, capaz de nos transportar à nossa terra. E a vida poderia ter mantido este registo, pois se aqueles vinham para ficar e este estava acomodado no seu amigo seio, não se assomavam motivos para que o convívio se extinguisse, para que as partes de apartassem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob o seguro o secundário Sol primaveril, a arma posa na vertical e de perfil, detida nas mãos de um trajo militar. A criança, de fartos caracóis loiros, equilibrando-se no poleiro feito de bicos de pés, exibindo a expressão facial própria de quem está empenhado numa tarefa manual complexa, boca deslocada, narinas dilatas, olhos de bugalho, estica o braço e faz o cravo escorregar pelo cano mortífero da metralhadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob as derradeiras e moderadas enxurradas da época das chuvas, centenas de milhares fazem a selecção fundamental entre o essencial e o fungível, o valioso e o dispensável, o pequeno e o grande, enfim, entre aquilo que é possível levar e o que se impõe deixar, emalam as papaias e as mangas recolhidas com o auxílio do ambicioso escopro. Correm para os portos e aeroportos, onde encontram um transporte quase fidedigno para o património móvel. Em passos trementes e coarctados pelo coração, mas coagidos pela razão, avançam lentamente, deixando a casa, a fábrica, as infinitas machambas, a fortuna e a felicidade, as vergastadas no lombo de alguns servos, perpetrada pela crueldade, as saudades e fortes lamentos de alguns empregados, regadas pelo humanismo e pela bondade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despolitizado como estava, nem lhe ocorreram os benefícios políticos e sociais, financeiros e económicos, a reconciliação histórica, a reposição da justiça, a projecção do Homem Novo, a promessa de igualdade, o fim da discriminação, o termo da miséria. Ficou sem patrões, e é tudo. Sem revoltas ou alegrias, cedo se conformou com o novo quadro, num minuto se acomodou ao novo cenário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem estava sentado numa cadeira, enquanto outros dez, em pé, o observavam. As varizes arroxeadas entrelaçavam-se nas pernas dos espectadores como as trepadeiras se entretecem no poste dos alpendres bem tratados. Um dos verticais, irrequieto e reflexivo, deu um passo em frente, esperando que os demais o concitassem a tosar devidamente os costados ao repoltreado apupado, materializando-se o que era já consciência universal, mas apenas tinha ser linguístico, “Essa cadeira é de todos.”. Um insurrecto bem sucedido estava sentado numa cadeira enquanto outros nove, em pé, o observavam. As varizes arroxeadas entrelaçavam-se nas pernas dos vetustos espectadores como as trepadeiras se entretecem nas hastes dos alpendres bem tratados. Outro dos verticais, insatisfeito e destemido, deu um passo em diante, aguardando que os demais o instigassem a surrar convenientemente o pêlo do acomodado vilipendiado, concretizando-se o que era já ciência geral, mas apenas tinha existência sonora, “Essa cadeira também é nossa.” O segundo sublevado estava sentado…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passou a trabalhar na fábrica, até que a maquinaria administrativa e o rigor contabilístico exasperaram, saía mais do que entrava, muito na mão e pouco no bolso, até que cerraram a mais fundamental das portas e a questão “défice, não défice” ficou solucionada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Precisaram de um cozinheiro na nova casa dos missionários. A oportunidade tocou à campainha de Alberto, abriu-lhe a porta e acolheu-a como aprazível para o seu destino. E, doze ou mais anos passados, o tacho continua a escaldar a sua base sob as ordens do Senhor Alberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ter-me-á dito um dia que o seu grande sonho era passear-se por Portugal. Mas estranhei no seu semblante um estado de alma inapropriado à pretensão que me apresentava. Ao invés da fácies desejosa de novidade, do nunca visto, de abrir a porta cerrada, dispunha-se com ares de quem já conhecia o majestoso saudar do pinheiro bravo, as serras e os montes caiados de cerejeiras em flor. Parecia recordar-se de, encostado a um pipo, beber num trago o vinho que banha o pedaço de chouriça condimentada, provocando o faiscar baboso do palato. E pergunto-me se poderei asseverar sem tropeçar num ilogismo “Conheci um homem que tinha saudades de um sítio onde nunca tinha estado!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa vez, levou-me a conhecer o seu bairro. Na digna casa onde vive, comprada pelos Combonianos, junta a sua numerosa família na demanda parcialmente infrutífera por um futuro mais próspero. A morada deste cozinheiro, composta por blocos e cimento, tem um pequeno avançado ao qual chamam varanda, onde nos podemos sentar e observar o vaivém dos habitantes deste bairro. A rua principal, térrea e irregular, está ladeada por casas e casebres que afrontam os transeuntes. Mais adiante, um mercado de tudo, de farpelas e calçado, batatas e cebolas, alho e feijão, milho e farinha, pilhas e preservativos, espelhos e esferográficas, enfim, quinquilharia usada, víveres e bricabraque para quase todas as mais elementares necessidades de um povo pouco exigente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Presentearam-no com um fato de treino azul, uma camisola oficial do FCP, um chapéu do mesmo emblema. E foi vê-lo, nas suas folgas, passear com profusa polpa, inchado como um grão de arroz aquático, parando aqui e ali para cumprimentar conhecidos e amigos, beber um refresco, mostrar a esta cidadela carenciada quem é, afinal, o grande adepto, quem é o detentor da figura mais virtuosa em estética e bom-gosto. Para fazer crescer o já vasto conglomerado de soberbos adornos dei-lhe algumas amostras de perfume. Pegou nas primeiras gotas balsâmicas e, à minha frente, impedindo-me um ai, sorrindo envergonhadamente por tanta vaidade, decantou o frasco na cabeça. “Ó senhor Alberto, isso não é assim! É para o pescoço e só precisa de deitar um pouco.” Riu-se da sua ânsia em ficar superiormente apetecível. Agora, instruído sobre as funções, fins e regras utilitárias do perfume, suponho-o caminhando, ao fim da tarde, imagino aquele vulto azul, com um sorriso de satisfação e realização, calcorreando as ruas de Nampula, largando na brisa tépida a mesma fragrância que enaltece qualquer fidalga senhora nas avenidas mais imponentes de Nova Iorque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentado à mesa metálica da cozinha, depois de nós nos termos saciado, engole apressadamente o jantar para evitar, na caminhada de regresso ao lar, os perigos e azares em que a noite é fértil. Nádega e meia na cadeira, tronco curvado sobre o prato, copo encardido à frente. É impressionante como a simplicidade não nos larga, quando está entranhada no líquido amniótico, quando foi o lugar onde nos fizemos gente e crescemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na noite escura que segue o dia de trabalho, refastelado na débil cadeira da sua varanda, seu lugar cativo, faz ressoar por todo o bairro a voz de Amália. Não fosse o fado a maior de todas as saudades… Recorda os tempos em que era novo e rijo, tinha esperança num futuro providente e bonançoso, corria atrás da bola irrequieta, no campo do Ferroviário de Nampula. E o amante da lhaneza, paciente e discreto, poderá ainda hoje sentar-se numa pedra angulosa do bairro, segurar o queixo com o punho, e ouvir este homem recordar quem foi, observar Alberto Chauveke, o rapaz que, um dia, cuidou chamar-se Rapaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu tem tido sorte com as pessoas.”, disse-me um dia. “Sabe porquê, Sr. Alberto?”, “Não, num sabi.”, “Porque as pessoas têm tido sorte consigo”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35757927-2020672100991250800?l=negracaixa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://negracaixa.blogspot.com/feeds/2020672100991250800/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35757927&amp;postID=2020672100991250800' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/2020672100991250800'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/2020672100991250800'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://negracaixa.blogspot.com/2007/05/alberto-ou-le-saudosisme-194-20.html' title='Alberto ou le Saudosisme - 194… a 20…'/><author><name>JMM</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14193583714694419729</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35757927.post-117494065459992276</id><published>2007-03-26T14:11:00.000-07:00</published><updated>2007-03-26T14:24:14.863-07:00</updated><title type='text'>Ensaio Descarrilado Sobre a Doação - 28.09.2006 - 24.03.2007</title><content type='html'>&lt;strong&gt;I. Da Doação&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Dar é, assim, este acto mágico e melódico, este elixir docemente perfumado, mediante o qual o que é de alguém passa a ser de outro. Dinheiro, um abrigo, uma coberta, um galo, um livro, um abraço, um beijo, um sorriso, uma aula de macua, enfim, tudo se dá. Um mero mas significativo acto translativo que, na sua modalidade mais radical, leva o doador a desfazer-se do seu Tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;II. Do Doador e da sua Motivação&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque me sinto bem. Para ajudar quem recebe. Porque espero receber na volta. Porquanto a consciência me pesa. Pois se gosto do donatário! Pois se o amo!! Dou porque lamento o pobre. Foi assim que me ensinaram. Tenho muito e já não encontro onde pô-lo. Dou, afinal, não só mas sempre também para que os outros vejam que dou.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que damos? Qual é a força externa ou interna, pura ou maculada, espontânea ou repensada, qual é o mote poderoso que nos leva a dar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um maltrapilho, de pé boto, estritamente etilizado, trajando imundas calças de meia-perna, segue-me pela cidade, apoiado num pau sinuoso, “Patrão, dá mili! Estamos mali aqui, dá mili, patrão”. Cansado de o ouvir, incapaz de sentir um lamento pela sua condição, mas irritado com a sua presença, abri a carteira e pus-lhe 20 Mtn. nas mãos. Dei para que me não incomodasse mais.     &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se ao menos o Homem não fosse tão apegado ao ter, tudo se interpretaria nos folhos da nossa essência, como se dar fosse tão-só o resultado de sermos como somos, um reflexo ontológico da nossa humanidade. Mas se o doador é tão valorizado pela sociedade, se o filantropo é aplaudido de pé, só devemos concluir que dar não faz parte de nós, é antes o nosso oposto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já que me desfiz, e não é pedir muito, ao menos que alguém o saiba e me dê o devido valor!  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certo dia, alguém se abeirou para me dizer o quanto necessitava de partilhar com o mundo um acto de bondade. Ter feito o bem por outro é reconfortante, mas se ninguém o sabe, nem tão-só o beneficiário, qual é o meu proveito? Quero, ao menos, ouvir um “fico-lhe grato”. Se te dou, sabe que te dou, ou melhor, sabei-o todos, para que possais avaliar quão generoso sou. A menos que também a outros devesse dar, pois, nesse caso, a doação fica só entre nós. Seja como for, haja alguém, para além de mim, consciente deste gesto tão notável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mandou Jesus, “Tu, porém, quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita, para que a tua esmola fique em segredo; e o teu Pai, que vê no segredo, te recompensará”. Na sua imensa genialidade, já adivinhava esta desconsolada necessidade do hominídeo topo de gama de propalar o próprio desprendimento. Lendo-nos, mandou-nos calar as doações. Silenciar perante os semelhantes, pois deus tudo vê e presencia, e assim sendo não necessitamos de soprar ao vento o perfume da nossa estética espiritual. Não nos solicita que combatamos o vício, lembra-nos somente a existência de um observador especial, cuja bondade deverá saciar a nossa fome de exteriorizar a nobreza do coração, há-de preencher este poluído desejo de sermos recompensados pelo bem que fazemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vê além do que os olhos te permitem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto mais contrafazes essa necessidade de ser perante os alheios,&lt;br /&gt;mais me confranges, Mais infame é essa empresa decadente.   &lt;br /&gt;Excita-se em mim o desprezo pelas máscaras que se apressam a cobrir-te o rosto,&lt;br /&gt;confirma-se, sem reserva, O prejuízo da tua existência.        &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Futuro, surgirá um Homem irrestritivamente diferente. Incapaz de fingir, preso à verdade e liberto por ela, olhará sem vergonha para os seus defeitos e permitirá que os demais se aproximem deles. Insatisfeito com quem é, buscará incessantemente a perfeição, mas não se esconderá atrás do falso cortinado bordado por quem dele espera. Em verdade, terminará pregado a uma cruz, apaixonar-se-á por uma rameira de S. Petersburgo, cavalgará, ensandecido, pelos campos manchegos, condenar-lhe-ão o estro à morte por lhe não ter corrido uma lágrima no funeral da mãe. Este, ou fado similar, será o radical termo da sua passagem por nós, mas a ninguém será legítimo desconhecer esse brilho especialíssimo, essa luz magnificente e deslumbrante, essa elevação superior, a humilíssima simplicidade de nunca ter escondido quem era.                 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feliz daquele que pode dizer “dou-te, apenas, para de te ver sorrir”, pois esse é o São.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;III. Do Donatário, Pedinte ou Recipiente&lt;/strong&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saio ligeiro da casa agradável das responsáveis da organização Justiça &amp; Paz, a qual está plantada no seio de um modesto bairro. Dois passos apenas e logo quatro crianças futebolistas me convocam “Tio, tio, tio, compra bola para nós, nós não tem bola.”. “Vocês não vêem que eu não tenho dinheiro. Também sou pobre.” “Então anda jogar com nós.”. “Não posso, tenho que ir trabalhar. Talvez trabalhando junte dinheiro para comprar uma bola e depois jogamos juntos.”. “Então, vem na sexta-feira para ver nós dançar e cantar.”. “Mas vocês dançam bem?”. “Nós dança bem. Muito até.”. “Bom, farei os possíveis.”. Rodeado de crianças, já não conseguia identificar a singularidade de cada rosto, limitando-me a uma visão de conjunto. Sinto algo a percorrer o braço, como uma pena leve e macia. Reparo então nos dedos comandados pela curiosidade de uma pequena criança, deslumbrada com a minha palidez. Fita-me embasbacada e passa a sua incrédula mão pela minha pele, tentando perceber onde termina a nossa diferença e começa a nossa semelhança. “Tio, fica aqui, fica aqui, com nós.”. Desta vez, não tive coragem de lhes dizer que não sou irmão do pai ou da mãe deles. “Não posso, a sério, não posso mesmo.”. “Então fala português, fala português com nós.”. “Português?! Mas nós estamos a falar português.”. “Não é este português, este não é bem. Nós quer o português de Portugal. Fala um pouquinho!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou em casa, aspirado pelo trabalho infinito. Tocam à campainha. Diz-me o Senhor Alberto que é para mim. Atendo um senhor de uma comunidade rural, do mato, a quem, há meses, ajudámos a recuperar a casa, comprando “parroti” e chapa zinco. Oferece-me uma galinha. Viva, ainda, mas atordoada pelas mais de três horas que já leva de patas para o ar. “Vinha dar lembrança, para levar para casa.”. “Fico-lhe muito agradecido, mesmo muito. Não tinha que se incomodar. E essa vida, como vai?”. “Agora, estou mali, mesmo mali, pá.”. “Então?”. “A minha casa voou, ficar sem tecto. Agora, nós vive em casa da mamã.”. “E a sua mulher?”. “Xiiii, estou mali, pá. Ela quer ir embora. Estou mali, aqui, pá.” “Então, e agora?”. “Eu precisa de comprar oleado. Com oleado já pode voltar a casa. Mas não tem condições de comprar. Estou mali…”, e baixou desalentadamente a cabeça, pousou os olhos no polido mosaico e posou para mim na sua desventura. Sentando à sombra de um sereno cajueiro, o nosso ancião pensava na solução deste bicudo problema. Sem tecto na casa, prestes a ficar sem mulher, prestes a ser remetido à casa da mamã. “Eu leva uma galinha ao mucunha e ele dá dinheiro para o oleado.”. E o mucunha lá acaba por ceder, “Pronto, tem aqui 200Mt. Compre o oleado e mande cumprimentos à sua mulher… ”. Mais tarde, a lâmina bidemsional seccionará o frágil pescoço do animal, que ainda viverá uns frágeis segundos depois da morte cerebral. O hábil executante conseguirá aproveitar o sangue quente de um incandescente vermelho, o qual em breve se misturará com o acre vinagre. Por tão-pouco, uns têm cabidela no prato, outros têm tecto em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou prestes a cruzar a linha que separa a rua da composta casa dos combonianos. Um polícia fardado dirige-se a mim. Alto, esguio, de passo certo, sem chapéu. A face está um pouco padecente. Ponho-me a presumir o motivo por que se dirige a mim e traz plasmada no rosto a nítida intenção de me falar. Tosco sou por ainda presumir. Sendo a presunção esse raciocínio lógico que nos permite inferir o desconhecido do conhecido, pressuposto da operação é a ciência segura do facto instrumental. Contudo, neste lugar, a certeza é meramente conceptual, deambula perdida no plano das ideias de intrusos estrangeiros incapazes de percepcionar o fosso. “Boa tarde, como está, Sr. Polícia. Em que posso ajudá-lo?”, cumprimentei e perguntei. “É pá, estou mali. Num tenho jantari, tenho fomi. Dá qualquer coisa, patrão. Tenho fomi…”. Enquanto se desempenha da nobiliárquica tarefa de manter a segurança e a paz, zelar pelo cumprimento da legalidade, este distinto agente das forças policiais, fardado em conformidade com o regulamento interno, aproveita para pedir uma esmola ao branco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tendo ido levar um amigo ao seu lar, entrei num bairro de degredo e miséria. Chegados à sua porta, saio do carro. Os transeuntes reparam imediatamente na minha presença. É tão frequente a presença de um branco por ali como o são as chuvas de Julho. Olho em redor, contemplando uma vez mais o abismo entre a estação de onde parti e aquela a que me trouxe o comboio do sonho. Uma criança de dois anos, descalça, com a fatiota desmazelada e prenhe de nódoas, corre desalmadamente para mim, dirigindo-se a este espécime alvacento. Preparo-me para pegá-la ao colo e mostrar-lhe o meu afecto. Todavia, ela trava a marcha pouco antes de embater contra o meu corpo, fixa-me destemidamente, estende a mão pequena e carnuda, “Patrão, dá mili!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ensaio, já descarrilado, e a teoria geral assim apresentada, tão facciosa e unidireccionada, têm mais pecados do que virtudes. Ficam para outra ocasião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando aterrei neste país, trazia um peito assoberbado de putativa filantropia, vontade de dar tudo, desfazer-me da totalidade dos meus haveres. Libertar-me deste ter que me tornava imundo e indigno de respirar o ar pertencente aos pobres. Aos poucos compreendi os malefícios do dar desordenado e desregrado. A caridadezinha material mais não faz do que alimentar este vírus pútrido e destrutivo, a que se chama dependência, e que nos faz mendigos da consciência dos abonados, os quais, hipocritamente, encontram na esmola a leveza do espírito. Não queremos ver, ou fingimos não saber que a pobreza material é, amiúde, um mero efeito de uma outra lacuna mais profunda e de transmutabilidade duvidosa. Essa, a que assenta na estrutura volitiva de cada um, na sua atitude perante a vida, enfim, é a consequência de um espírito definhado, miserável, assombrado pela opressão passada e actual, por uma cultura de preconceitos e grilhetas, um medonho acomodamento ao mais ou menos e ao deixa andar. Dar a este pobre é, pois, mostrar-lhe o que ele não é por sua culpa e incendiar nele a revolta por isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se vim a borbulhar de intenções doadoras, partirei deixando pouco. Quando regressar, sendo a mala a mesma, terei mais trabalho a fazê-la do que tive a desfazê-la. No final, todos saberemos, já o sabíamos, quem pediu a quem, mas estremeceremos quando percebermos quem recebeu de quem.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35757927-117494065459992276?l=negracaixa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://negracaixa.blogspot.com/feeds/117494065459992276/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35757927&amp;postID=117494065459992276' title='6 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/117494065459992276'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/117494065459992276'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://negracaixa.blogspot.com/2007/03/ensaio-descarrilado-sobre-doao.html' title='Ensaio Descarrilado Sobre a Doação - 28.09.2006 - 24.03.2007'/><author><name>JMM</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14193583714694419729</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35757927.post-116983442278321366</id><published>2007-01-26T09:59:00.000-08:00</published><updated>2007-01-26T10:00:23.140-08:00</updated><title type='text'>N'Alua - 13.01.2007 a 16.01.2007</title><content type='html'>O pano nocturno sobe lentamente, permitindo a invasão da juvenil clareira pelas janelas do quarto onde durmo na missão do Alua. Aqui chegámos, ontem, eu e o meu tio. Ele revê, visita, relembra, eu descubro e conheço estes relevos singulares, de montanhas informes intercaladas por curtas planícies semicultivadas, que são a doce antecâmara de Pemba, antigo Porto-Amélia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito se fala e escreve sobre o entardecer africano, todavia, por falta de atenção, razão, ou por excesso de preguiça, são poucos os glosadores do amanhecer. Talvez seja, apenas, porque a sensibilidade dos mais sonhadores se alimenta da escuridão e, assim, desperta com o cair do dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O relógio marca 4h e 38m. Levanto-me com esforço, movido pela pretensão de saber como nasce África. Venho para varanda. Sentado numa cadeira franca, observo a estrada de terra batida ladeada por duas filas infinitas de espadaúdos coqueiros cujas folhas, jogadas para cá e para lá ao sabor da suave brisa, se tocam e beijam. A luz do Sol ilumina vagarosamente esta paisagem edénica. E fá-lo a medo, receoso de desviar as mantas e encontrar coqueiros contritos, surpreendidos na sua indecorosa mas inocente luxúria, obrigados a confessar que o amor os une. E de repente, como se as primeiras luminosidades houvessem sido somente um aviso, num movimento açudado, que tudo se perderia se os olhos piscassem, a claridade alaga este pequeno universo e o dia chegou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nestes ambientes, sentimo-nos vivos. Não é enquanto corremos que temos a noção verdadeira do cansaço. É quando paramos. A boca seca-se até ao sufoco, as pernas tremem até ao desequilíbrio, o cérebro rodopia suplicando por oxigénio. Percebemos, finalmente, como têm sido esforçada esta caminhada. Com isto de estarmos vivos sucede exactamente o mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À parte alguns pássaros, imbuídos nos seus recitais matutinos, o silêncio faz um eco bonançoso de calma e solidão. Até que as vejo, envolvidas nas capulanas, com os filhos a tiracolo e as pequenas enxadas equilibradas na cabeça. Palmilham caminho entre os coqueiros, em direcção à machamba, onde acariciam e amimam a terra, para que ela, em troca, numa salva de agradecimento, partilhe a sua riqueza infinda. Impressiona sobremaneira o hábito desta gente em tudo pôr à cabeça. Bacias, tachos, paus, carvão, sacas de mandioca, até, sem faltar à verdade, cheguei a ver um pequeno rapaz que transportava, com habilidade impressionante, uma mirrada laranja no cocuruto. De uma perspectiva funcional, ganha-se largamente, pois as mãos permanecem livres para os restantes afazeres. Por ventura, vendo a questão do lado anatómico, esta prática contribui para o achatamento do crânio. Seja como for, desprezando as virtudes e os prejuízos, dou por mim, de vez em quando, a querer temer que os africanos, numa acção concertada pouco vista neste continente, façam o pino e virem o mundo ao contrário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No terceiro dia da nossa viagem, enquanto conversávamos sobre o futuro desta gente, na sala da casa em Nacala, reparei num relógio de parede cujo fundo é África. Fiz notar ao meu tio que os ponteiros tinham parado quando apontavam para Norte, para a Europa rica e desenvolvida, “Vê bem, até aquele relógio nos diz que a hora de África nunca chegará”. O meu tio levantou-se e tocou ao de leve nos ponteiros que, estranhamente, recomeçaram a sua caminhada pelo tempo. “Vês, só precisam de um pequeno empurrão”. “Nem penses, verás que param novamente quando estiverem na direcção da Ásia. Nunca chegarão aqui”. Levantámo-nos e fomos dormir, e enquanto os olhos se cerravam de forma indecisa, naqueles instantes gozados entre o sono e a vigília, ainda desejei falhar a profecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Alua, quando regressávamos de mais uma cantada e dançada missa de Domingo, entabulei conversa com um petiz de andar desengonçado e descontraído. “Ó Firmino, tu não és capaz de subir aos coqueiros, pois não?”, “Sou, sou.”, “A sério? Bom, tu és mesmo valente. E se cais?”. Parou, fixou-me para preencher de solenidade a sua resposta, “É o destino…”. Tal como Heraclito, Firmino não discute, profere. Quando se observa a pobreza, apreende-se com certeza absoluta uma premissa fundamental: tudo o que é bom ou mau é o efeito de uma rede complexa de causas. Contudo, esta crença altamente difundida, manifestada na resposta de Firmino, é um factor destrutivo poderosíssimo, trespassa como uma espada impiedosa este povo, impedindo-o de progredir. Imagine quem puder o que seria viver uma vida predefinida em todas as suas vicissitudes. Qual seria a atitude do oleiro se acreditasse piamente que a azáfama do barro virgem na roda giratória e a intervenção das suas mão calejadas no composto térreo nada relevariam para a definição do produto final? Em vez de duas, utilizaria só uma, no lugar de um olhar espevitado e agudo capaz de coordenar os movimentos colocaria a distracção, perder-se-ia com o ziguezaguear dos insectos. Ao invés de transpirar a pouca soberba permitida pelos bons costumes, permaneceria indiferente perante um jarro simétrico e harmonioso. Para quem aprendeu que a cama onde nos deitamos foi feita por nós, que hoje definimos o amanhã, esta guilhotina de predestinação escapa à capacidade de compreensão. Mas ela vive, num Mundo capaz de visitar a Lua e de estar permanentemente conectado, entre esta Humanidade disposta a ir além do previsto, há quem pense que os caminhos de amanhã já estão trilhados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tarde já vê o rosto sereno e obscuro da noite. Observo alguns meninos sentados em bancos, por baixo de um cajueiro, conversando sobre assuntos de crianças. Até que um, mais afoito, caminha na minha direcção, e sem se aproximar totalmente, “Senhor Padre, tu és novo, anda para ali, nós vai-lhe ensinar makhua.”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No início da minha estadia, ia muitas vezes ao mercado municipal de Nampula para comprar fruta e alface. As crianças de rua, abeiravam-se de mim, “Patrão, patrão, dá mil. Estou a pidir, tenho fomi!”, “Eu não sou patrão, já vos disse que não sou patrão, eu sou é empregado, não me chamem patrão. Dinheiro não vos dou, mas vamos ali comprar bananas.”. Repeti o procedimento uma vez, e outra, até que ao terceiro dia, “Senhor Padre, nós quer bananas.”, “Eu também não sou padre, nem patrão nem padre, sou João.”, e um deles, contando pouco mais de 6 anos, de rosto brando e trato manso, pegando-me na mão, “Está bem, Senhor Padre, vem ali comprar as bananas de nós.” São assim, estes meninos de rua, de inteligência e perspicácia altamente refinadas. Muito viram, ouviram e perceberam, sem sofismos e falsos argumentos, que, nestas terras, só por dinheiro ou por deus. A filantropia é suficiente para nove meses e pouco mais, mas para toda a vida, por tempo indeterminado, só o inigualável sustento da fé ou o poderoso dínamo da ambição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Senhor Padre, tu és novo, anda para ali, nós vai-lhe ensinar makhua.” Assim foi. “E os vossos nomes? Já andam na escola?”, “Amílcar, estou na 4ª classe.”, “Jorge, estou na 3ª.”, “Viegas Ramos, estou na 4ª.”, “E tu?”, “Eu?, sou Sabonete Hilário, estou na 4ª.”. “Vá, escreve no caderno, para aprenderes.”. Transformo, empiricamente, a fonética em ortografia, “Mueri é milho, matapa é caril, ekole é coco, enupá é casa….”. E assim por diante, entre brincadeiras e jogos, uma hora de aulas oferecidas, sem exigirem permuta, só pelo infindável prazer de ensinar makhua a um padre branco e novo. Quando o cansaço já se adensava nos pequenos cérebros e a mapira esperava no almofariz para ser pilada, solicitei-lhes ainda que enfeitassem o meu material escolar com os seus nomes. A muito custo, com uma caligrafia contorcionista, perdendo letras ou exagerando nas vogais, lá me ofereceram a lista desta amizade, selada por um “Até amanhã.”, da parte deles, e um “Até sempre.”, da minha. Segundo reza certa história anedótica, os efésios pediram a Heraclito que lhes elaborasse as leis do Estado. O filósofo, misantropo convicto, mandou dizer que a honra lhe não convinha, pois preferia brincar com as crianças no templo de Ártemis. Não é de extremos que vive o Homem, nem de actos tresmalhados ou devaneios jocosos, mas em verdade, muitos de nós, nesta situação ou naquele canto, desencantamos a plenitude da existência e aprendemos a ser, por breves instantes, totalmente felizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia nasce uma vez mais. O candeeiro dos pobres já se apagou, e agora é a luz ardente da grande bola de fogo que rompe as janelas mal tapadas do quarto de Nacala. Levanto-me e refaço a fisionomia, desloco-me até sala, onde encontro o meu tio já desperto, absorto no folhear reflexivo de uma revista. Olho para o relógio da noite anterior e noto que os ponteiros voltaram a encravar, mas quando apontavam para Moçambique. Chamo a atenção do meu tio, “Chegou a hora deste povo...”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No regresso a casa, pela estrada estreita e asfaltada, a luz solar, incapaz de vencer a vedação coriácea de algumas nuvens, limita-se a iluminar parcialmente a paisagem, dizendo-nos que a utopia é o que necessita do contributo de todos, mas só alguns desejam.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35757927-116983442278321366?l=negracaixa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://negracaixa.blogspot.com/feeds/116983442278321366/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35757927&amp;postID=116983442278321366' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116983442278321366'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116983442278321366'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://negracaixa.blogspot.com/2007/01/nalua-13012007-16012007_26.html' title='N&apos;Alua - 13.01.2007 a 16.01.2007'/><author><name>JMM</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14193583714694419729</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35757927.post-116983415998108725</id><published>2007-01-26T09:49:00.000-08:00</published><updated>2007-01-26T09:56:00.296-08:00</updated><title type='text'>Ode Fraterna - 19.12.2006 a 6.1.2007</title><content type='html'>“As pessoas são pessoas através de outras pessoas”&lt;br /&gt;                                                            Provérbio Xhosa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sabe-lo, mas lembrar-to não é despiciendo. Amei-te enquanto exististe, amar-te-ei enquanto existir. Amei-te quando ainda não tinhas nome para te chamarem, amar-te-ei quando já não fizer sentido chamar-te. Esta é a importância do teu nome...”&lt;br /&gt;                                                            Incógnito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O majestoso avião da TAP aterra finalmente no Maputo. Para trás, a 10.000 Km., ficam momentos de alegria reconfortante, para a frente, novas histórias, aventuras e lições, aqui e para sempre, memórias vivas lacradas pela amizade, porque se a vida não valer por mais nada, já valerá tudo se gostarmos muito de alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As rodas trementes mas eficazes do carro bagageiro avançam paulatinamente pelo chão baço do aeroporto da Portela. É farto o cansaço de quem imprime o movimento a este veículo. Como é certo e sabido, não pode o empurrado adiantar-se a quem o empurra. E ai dele se o faz, pois arrisca-se a perder o empurrador e depois nem daqui para ali nem dali para acolá. Vislumbro finalmente estes dois que se o não fossem também eu o não seria. E uma festa serena apodera-se de cada coração, ascende à cabeça e desce ao estômago, e sem se saber porquê, sustém-se aquela lágrima ou suspiro que mostraria o evidente: é muito grande esta alegria de vos reencontrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E logo começou “Estás mais magro.”, “Estás cansado?”, “Dormiste?”, “Tens fome?”, “Deves descansar.”. No lar, fez-se este almoço ao qual chamam pequeno, falou-se e comentou-se, entrecruzando e misturando conversas, como sempre acontece naqueles momentos em que todo o tempo do mundo seria insuficiente para dizermos tanto quanto queremos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela noite chegaria o jantar, com estes muito estimados, cada um na sua forma, porquanto todos temos a nossa. Uns mais absortos, outros mais dados ao extravasamento, estes dedutivos e aqueles mais indutivos. Saber como foi, o que foi, se a experiência é rica, se desilude ou surpreende, “Posso sugerir?, Dar uma ideia?”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Almoçamos, ao segundo dia. Tantos rostos jovens e esperançosos. No círculo da entrada, abraçamo-nos, e quão fortes são esses amplexos, e que felicidade é a de nos envolvermos nesta celebração do reencontro e da benquerença, quem sabe, aqui e ali, da mais fecunda e autêntica fraternidade. Na mesa comprida, as palavras flúem para trás e para diante, entre piadas e remoques, comentários e saudações, enche-se o estômago de alimento e a alma de vós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao jantar, sonorizado por um idioma irmão, é a ti quem vejo e observo, aproveitando os minutos, ainda no seu começo, mas já frugais para tanto fazer e dizer. Ali, numa pequena mesa quadrada, num albergue iluminado por uma luz bruxuleante, somos profusos em promessas diversas daquilo que será ou há-de ser. Sonhando com um futuro de caminhos sobrepostos, na berma dos quais se pavoneiam lustrosos alecrins, jovens acácias em flor e nobiliárquicos ulmeiros. E do mais se não fala, pois nem tudo pode ser dito e muito menos pode ser escrito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um breve almoço de arroz feito, no qual vos reencontro, só para vos saudar, para perguntar “Como está?”, para ouvir “Tivemos saudades tuas.”.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontro-me convosco para darmos vazão a esta torrente que lava a cevada e conversarmos sobre como tem sido. E não fomos moderados em alguma das tarefas. Enlevados e de coração ao alto, lá jantámos, numa confraternização cujo registo guardarei até ao fim dos tempos na algibeira das recordações mais preciosas. Perguntam-me com acuidade “Lá, o que é que te faz mais falta?”. E sem rodeios ou falácias de elegância, “São vocês”. No espaço dançante de sempre, onde as nossas pegadas já se encrostam, subo um degrau e outro, retiro-me da confusão, só para apreciar esta sorte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois abraços tão esperados e sempre tão sentidos. Mais reservada e observadora, mais desprendido e poeta. O jantar é especial, pois celebramos o dia do Seu nascimento. Cada qual na sua leitura, cada um na sua festa interior, e somos tantos, muitos mesmo, e tão diferentes, mas a verdade é que todos levantamos o mesmo testo e empunhamos a mesma colher, antes de olharmos para dentro e escolhermos a nossa parte. E de tão rara deveria esta união ser conservada por muito, para sempre. “Sabes o que mais me custa? É de já não termos tempo de assistir à vida desta gente.”. E agora as despedidas, pois só daqui a seis meses nos veremos, e quanto custam…, por serdes tão especiais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certo dia, um homem de vida já muito longa falou-me dos seus primórdios. De como perdeu dois irmãos na febre espanhola, de como perdeu outros dois durante a 2ª Grande Guerra. “Meu Deus, como deve ter sofrido a minha mãe… Mas mesmo assim, quando cheguei a casa para comunicar a decisão de partir, disseram-me que seguisse o meu caminho, que não me importasse com eles. E eu era o único homem da família e nós éramos tão pobres. Quando me lembro…” Depois disto, virou a face e adivinho que os seus olhos terão sido toldados pelas águas da saudade e da gratidão. Nestes momentos, vislumbro seres humanos superiores, faias descomunais, belas e sumptuosas, entre sarças desengonçadas e tortulhos decadentes. É distinta, pois, a extensa ramagem destes pais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em ti, sentado há já largos anos, sempre descubro a paz e a riqueza de espírito envolvente e marcante, mostrando-me um outro lado da vida, mais profundo e reluzente, onde duas pessoas se encontram e deliciam com o simples prazer de se ouvirem. E de ti, nesse perene exemplo de serviço e abnegação, retiro a prova cabal de uma história singular que não cessarei de contar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num rodopiar kitsch buscamos o requinte e a novelle cuisine, nem que seja para podermos fazer pouco desta atitude. E falámos, disto e daquilo, de como faremos os trilhos mais descalços desta África austral.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a senhora, muito me honra e engrandece com esse “Gostava de o ver.”. Também eu tenho prazer em vê-la. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os grãos moídos e aromáticos deixam-se regar pela água fervente, sobrando desta harmoniosa cópula uma solução escura e amarga. Á mesa do café, com estes de coragem que decidiram existir e mostrar o quanto valem noutros recantos, ensinando-me esta verdade imensa e intocável proferida certa tarde por um altíssimo presbítero, “O mundo não está todo aqui.”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Sol levanta-se preguiçosamente nas vastas planícies alentejanas, combatendo com envergonhado sucesso o gelo da madrugada. Ouve-se o estoiro da rolha de uma garrafa de champanhe e existe alguém que, entre irmãos, festeja a entrada no novo ano dois dias antes de ele se apresentar.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caminho, ainda paramos nesta terra de vinho célebre, para cumprimentar as senhoras e os senhores. E entre uns mais acalmados pela idade e outros de cinética vincada, garantimos saudades recíprocas e prometemos “Até breve.”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós, tu e esses teus, nos quais deposito tanta estima, celebramos nestas pedras altas o advento de 2007. Pela noite dentro, entre esta e aquela conversa, no meio de um copo e de um abraço, um carinho e um beijo, volto a apartar-me para tomar o peso da minha felicidade. Pois isto do sorriso genuíno é não mais que o resultado de pararmos um momento, olharmos à nossa volta e tomarmos o pulso, sentir a alegria do coração, e deixarmo-nos levar pelo rio jubiloso de estarmos juntos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na ombreira da porta fixa-se uma placa onde se pode ler o nome da adega. Lá dentro, um peculiar ajuntamento de homens faz-me anotar que a despedida é sentida e o regresso será festejado. Entre discursos e palavras de ruborescer pergunto-me se não vão os dizeres além do visado. E logo confirmo a hipótese, mas então recordo como aprendi que no fervor da emoção somos levados a engrandecer as qualidades dos nossos amigos, deixando neste eco hiperbolizado de adjectivação a prova cabal do quanto gostamos deles. Estoutra senhora, a mais entusiasta ouvinte dos Relatos da Nigrizia, que depois de recolher com sofreguidão histórias e historietas, me diz, com um encorajador brilho nos olhos, “Vá, realize-se por mim e por si!”.      &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estes me junto para celebrar o maravilhoso milagre da geração, da continuidade, desta arrepiante bem-aventurança de se poder dizer “Aqui está uma parte boa de nós.”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um reencontro convosco. Porque muito me ensinastes e em passos não raros mostrastes como se pode respeitar e dar a quem ensaia os primeiros passos. E assim, sinto-me compelido a aparecer para vos saudar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vós, há minutos no mesmo assento e hoje dispersos por ali e por aqui, mas, mesmo assim, juntos no reconhecimento de que algo de muito valioso sobrou de almoços e cafés circunstanciais. E não raras vezes ouvi-me dizer “Foi aquele gajo quem me ensinou a fazer a isto!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este Senhor, a quem devo parte da vontade de ser melhor. Quão profícuo terá sido só mais tarde saberei, só quando avaliar a vida e o percurso seguido, só neste balanço poderei conjecturar sobre o menos que teria sido se ele me não tem dado a mão.    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma breve refeição com os de ontem e outros mais, antes de partir para o aeroporto. A saudade já se apodera fielmente do coração e da firmeza das mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um telefonema único, daqueles dois especialíssimos. Entre beijos e “Toma cuidado, come e manda-lhe um grande abraço nosso.”, ouço de uma voz rouca “O tempo é um cavalo que foge…”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Junto do balcão do aeroporto, despacho a bagagem e marco assento no avião. Entrementes, uma voz feminina confidencia-me ao ouvido “Nem sabes quantos estão ali para se despedir.”. Olho para trás e vejo o notável aglomerado de tantos que ainda se incomodaram a gastar o último minuto para dizer até logo. Abraços, beijos, despeço-me, e enquanto as escadas rolantes me transportam às portas de embarque olho para trás, para estes dias, e sinto o enormíssimo orgulho de me terdes por vosso amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, vós os três. Chegou a hora e com ela as lágrimas de nos apartarmos. Ou então, elas vêm pelo simples facto de um dia me ter convencido, num momento capaz de transladar o curso da existência, que se a vida não valer por mais nada, já valerá tudo se gostarmos muito de alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estas palavras, por vezes propositadamente incompletas, sibilinas e encriptadas, não são um choro mimalho ou contrafeito, não são um balido jactancioso sob a luz dos holofotes. Se assim fosse, teríamos uma nuvem vituperiosa sobre quem as diz e de quem se diz. São, antes, o registo emotivo e simples de um sentido obrigado perifrástico. Em verdade, há dívidas que, embora não possam ser pagas, devem ser reconhecidas. E muito se diz quando muito se deixa por dizer.&lt;br /&gt;      &lt;br /&gt;Envolto na escuridão já avançada, contemplo esta fortuna de tão pouca gente achar que eu lhe devo e de eu achar que devo a tanta gente. Segundo uma premonição antiga, companheira desde os tempos de adolescência, daqui a muitos anos, dois velhos homens estarão sentados à beira de uma falésia, desfrutando do mergulho do Sol primevo no oceano vasto e azul. As cadeiras serão de palha gretada mas confortável. Um deles, com a cara enrugada e marcada, olhará para trás. Verá uma planície verde e fulgurante, onde a vida nasce, se embeleza e morre. Ficará tão deslumbrado que desta vez não conterá uma lágrima límpida e mais salgada do que o habitual. Em seguida, a nostalgia, esse lamento de já não sermos quem gostámos tanto de ser, tomar-lhe-á num repente o coração, e nesse instante recordará o passado em cada um dos seus mais belos pormenores. Assoberbado de emoções, olhará de novo para a frente e fitará uma vez mais o maravilhoso astro ígneo que se apaga na água cristalina e ondulante. Cerrará levemente os olhos para evitar a lesão das lanças flamejantes da mais firme luz alguma vez vista, meneará a cabeça fatigada, e num lampejo de lucidez único, dirigindo-se a si, ao seu companheiro e a tantos outros que passaram, dirá num sussurro lento “Fomos lindos!”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35757927-116983415998108725?l=negracaixa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://negracaixa.blogspot.com/feeds/116983415998108725/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35757927&amp;postID=116983415998108725' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116983415998108725'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116983415998108725'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://negracaixa.blogspot.com/2007/01/ode-fraterna-19122006-612007_26.html' title='Ode Fraterna - 19.12.2006 a 6.1.2007'/><author><name>JMM</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14193583714694419729</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35757927.post-116539513885017797</id><published>2006-12-06T00:51:00.000-08:00</published><updated>2006-12-06T00:52:18.850-08:00</updated><title type='text'>Epílogo - 28.11.2006</title><content type='html'>Fui com o Arlindo a casa do Reginaldo, aquela atravancada de vermes e degradação. Fomos ver as obras de recuperação patrocinadas por algum benfeitor. Pergunto ao Reginaldo “Passaste de classe?”. Diz-me “Sim, passei.”. Deita os olhos ao chão, toma coragem, “Agora, gostava de receber um presente.” E de facto, tem razão este Reginaldo, é no premeio devido e na reprimenda merecida que também está a base da educação, da motivação, da gestão de seres humanos. Salvo se houver criança de 10 anos feliz e realizada apenas com os benefícios da instrução ou trabalhador satisfeito somente com os lucros e sucessos do empregador. Se houver, é adulto ou é patrão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35757927-116539513885017797?l=negracaixa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://negracaixa.blogspot.com/feeds/116539513885017797/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35757927&amp;postID=116539513885017797' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116539513885017797'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116539513885017797'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://negracaixa.blogspot.com/2006/12/eplogo-28112006.html' title='Epílogo - 28.11.2006'/><author><name>JMM</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14193583714694419729</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35757927.post-116539506633413185</id><published>2006-12-06T00:50:00.000-08:00</published><updated>2006-12-06T00:51:06.336-08:00</updated><title type='text'>Fado Menor - 25.11.2006</title><content type='html'>Quem vê de fora não pode deixar de parar e pensar. Dentro da pequena cozinha da casa dos missionários, quatro homens dispõem-se em torno de uma mesa de metal, no cimo da qual está um minúsculo leitor de cassetes. Um animado electricista brasileiro, um padre italiano erudito linguista, um cozinheiro moçambicano de coração largo e um outro português. Das débeis colunas do engenho sai, com dificuldade, um tremido e chorado som de guitarra portuguesa acompanhada pela límpida voz da Amália. Os ouvintes estão absortos nas memórias, nas saudades, no que a vida poderia ter sido. Todos tão diferentes e tão unidos por aquele momento. Parece ser também esta a alegria do povo a quem se pode comprar o chão sagrado, mas a vida não. Há quem diga que do fado ou se gosta ou não se gosta. Não é verdade. Do fado ou se gosta ou não se conhece.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35757927-116539506633413185?l=negracaixa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://negracaixa.blogspot.com/feeds/116539506633413185/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35757927&amp;postID=116539506633413185' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116539506633413185'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116539506633413185'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://negracaixa.blogspot.com/2006/12/fado-menor-25112006.html' title='Fado Menor - 25.11.2006'/><author><name>JMM</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14193583714694419729</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35757927.post-116539481529304846</id><published>2006-12-06T00:44:00.000-08:00</published><updated>2006-12-06T00:46:55.300-08:00</updated><title type='text'>Moçambique Adentro - 14.11.2006 a 18.11.2006</title><content type='html'>E do Maputo lá partimos para Nampula, eu e o meu pai. No avião, ao nosso, lado está uma senhora com cerca de 65 anos. Tem um aspecto simples e agradável. O meu pai, com a espontaneidade do costume, pergunta-lhe logo de onde é, para onde vai, o que faz, e, mais arrojo ainda, quantos anos tem. Sorrindo, “Uhmm, já tenho muitos, muitos, já sou muito velha. Tenho aí uns 30.” Não sabe qual é a sua idade, e isso é muito comum entre esta gente. Para quem, como nós, se habitua a contar os minutos e os segundos, as horas e os minutos, os dias e as horas, os anos e os dias, para esses, dizia, esta ignorância só pode despertar um sorriso enternecido. Mas será que saber quantos anos já vivi me permite saber quantos hei-de viver? Será que a idade me diz quanto posso e como posso fazer? O tempo e o espaço são os grandes referenciais da vida quotidiana, dos projectos futuros, das memórias passadas, mas aqui os seus contornos são mais incertos, o seu significado é mais sibilino e a sua utilidade mais duvidosa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Arlindo, com gentileza e amizade, disponibilizou-se para nos mostrar alguns dos belos lugares da província de Nampula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Avançamos pela estrada entre Nampula e Nacala. Estará ao nível das nossas estradas nacionais. Mas já é um grande avanço. As vias são um determinante impulso para o desenvolvimento. A riqueza da humanidade, a material também, provém da cooperação, da coexistência, de sermos muitos e de nos encontrarmos, de coincidirem tantas das nossas necessidades e de divergirem tanto as nossas capacidades. É por isso que o isolamento nos faz minguar, embrutecer, empobrecer. As acessibilidades aproximam-nos, tornando-se não a riqueza em si mas um dos instrumentos para alcançá-la. São grandes as esperanças correctamente depositadas nesta estrada. Hão-de confirmar-se. Dirigimo-nos a Nacala. Na orla da estrada dispõem-se muitas palhotas de adobe e capim. Ao longo de 190 quilómetros, pessoas e mais pessoas. Alguns gozam, sentados, o refrescante crepúsculo. Mamãs, com bebés às costas sustidos pelo tecido colorido e resistente das capulanas, debruçam-se sobre a terra da machamba, onde depositam grãos de milho, os quais, depois das primeiras chuvas, hão-de medrar e servir de alimento. Outras, depositam as forças e o tempo no sobe e desce ritmado do gigante pilão, que cai pesado sobre a mandioca contida no largo almofariz, provocando a desagregação, produzindo a farinha, a base alimentícia de 70% da população moçambicana. Ao aproximamo-nos do litoral, a terra vai aplanando, os embondeiros tornam-se mais frequentes, bem como aquelas pequenas árvores de tronco esguio e ondulado, com uma bonita copa convexa e achatada, tão comuns nas paisagens africanas mais difundidas. Na berma da estrada, crianças e jovens que vendem mangas e castanha de caju expõe o seu produto aos viajantes, na esperança de trocarem por dinheiro os filhos das árvores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noutra ocasião, perguntava-me o Arlindo “Quais são as perspectivas de futuro desta gente que vive distante da cidade?”. De facto, o seu universo é estreito, contido num recipiente acanhado. Cruzaram-se com a tecnologia quando um familiar da cidade trouxe de presente um rádio. Foi um passo significativo, pois assim acercaram-se mais um pouco. E estes são privilegiados, porquanto a proximidade da estrada e da linha de comboio lhes explica que há gente a ir e a vir, um mundo aquém e outro além, e isso já muito. Mas se estes se podem encostar e tocar com o nariz no curto horizonte, o que fará daqueloutros perdidos no mato, onde não chega a electricidade, o telefone. A vida desta gente é, desde o início, trabalhar a terra com fraca arte, colher o que a terra dá, pouco fazendo para que ela dê alguma coisa, fazê-los, dar-lhes luz e criá-los, calcados por uma tradição tantas vezes carcerária e difusora de medos. Vivemos nestes hectares, o dia a dia, até ao dia do soçobro, o nosso espaço não pertence a este tempo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nacala é uma cidade litoral, proprietária de um dos mais magníficos portos naturais deste planeta e seguramente o melhor de Moçambique. Este albergue de quem anda sobre o mar, com os olhos postos na Índia, um dos maiores mercados do mundo, goza de uma localização geográfica digna de criar inveja. Sito numa bonita baia, beneficia da profundidade e do sossego das águas, as quais assim permanecem até à costa, permitindo aos grandes barcos, batelões, escaleres, chalupas, às barcaças e aos navios, um atracar perfeito. A cidade, em sentido próprio, inicia-se numa encosta que vai descendo até ao mar. As suas dimensões são reduzidas. Alguns edifícios, algumas casas de considerável luxo, e, muito bom, uma razoável quantidade de indústrias. Nos arrabaldes, um grande aglomerado populacional junta-se, ocupando palhotas ou casebres, interessados na riqueza e nos postos de trabalho dados à costa pelo pacífico ondular do Índico. Fica a sensação da existência de dinheiro a circular neste lugar. São os benefícios dos portos, das alfândegas, dos armadores, da exportação, das empresas que, inteligentemente, se avizinham dos pontos de contacto com o exterior. Pela primeira vez, desde a chegada, sou invadido por uma profunda esperança no avanço deste país. Se não se criarem distorções interesseiras, Nacala virá a ser uma grande cidade de África, um motor de crescimento para o norte de Moçambique, um zéfiro marítimo de progresso e bem-estar espalhando-se em direcção ao mundo. Esperemos pois que o desenvolvimento seja sustentado, a meritocracia presida à distribuição da riqueza, e, não menos importante, haja vontade de trabalhar bem, com seriedade, sem improvisos, com planos cumpridos, com espírito comunitário. Tudo visto, também nós zarpámos em direcção a outros portos.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegados à entrada da ponte, observamos, a cerca de 3 ou 4 quilómetros de distância, o que terá sido um lugar de fadas, dos mais belos desta terra, ainda hoje património da humanidade, a cidade que Italo Calvino gostaria de ter inventado e descrito. Atravessamos a ponte estreita e pusilânime, onde não cabe mais de um carro. As obras de beneficiação em curso fazem pressentir a sua antiguidade. Entramos, finalmente, neste fabuloso paraíso. No início, logo encontramos os habitantes do arquipélago metidos em azafamados mercados. As intermináveis filas de panamás de capim dispõem-se sobre os fracos tijolos de areia, explicando-nos que antes da cidade de cimento, colonial e lusitana, está outra mais modesta. Muitas pessoas fugiram para este local durante a guerra e agora pretendem permanecer. Veio a Unesco e construiu em terra firme uma pequena cidade com escolas e hospitais, casas e casinhas, óptimas condições para começar uma vida. Mas isto de uma pessoa se acostumar ao seu lar tem que se lhe diga. São os cantos e os varandins, as rachas e os cheiros, até os buracos das telhas, tudo gera intimidade, cumplicidade, hábito, e depois é o cabo dos trabalhos para dar um passo, mesmo quando, objectivamente falando, seja um passo para melhor. Ultrapassado o primeiro departamento, mergulhamos na antiga capital de Moçambique. Uma cidade de edifícios baixos mas airosos, com varandas de mármore trabalhadas. As ruas são ruelas, estreitas e pitorescas. Todavia, as casas estão muito degradas, sendo apenas possível saboreá-las no nosso imaginário e não apreciar o quanto são. Mas assim como é preciso imaginar Sísifo feliz, também é necessário pensar estas quase ruínas rebocadas, pintadas, cobertas por telhas escarlate de barro cozido. Só assim, através da fantasia, é possível recuperar e gozar a magia e a beleza singular deste lugar. Deparamos com a estátua de Camões. O príncipe encontrou aqui inspiração e pouso adequado para potenciar a sua genialidade e escrevinhar parte dos Lusíadas. Visitamos a bonita casa onde um dia habitaram os vários governadores de Moçambique. Alguns edifícios estão em processo de recuperação, produzindo-se assim um lampejo de esperança, uma crença de que este ainda voltará a ser um dos locais mais belos do mundo. Almoçamos em saudável confraternização à beira mar. Regressando à procedência, atravessamos, novamente, a antiga ponte entre o céu e a terra, deixando para trás aquela que é, devida e indevidamente, a famosa Ilha de Moçambique.           &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calcorreámos 30 quilómetros de picada inóspita, por entre os já corriqueiros cajueiros, as familiares mangueiras e os sempre peculiares embondeiros, até chegarmos à missão da Mueria. São quatro os edifícios principais. Do lado esquerdo, a casa dos missionários, atrás da qual se queda o lar de raparigas estudantes. No meio, a escola, e, do lado direito, o centro de saúde. Nos tempos, este último era a casa dos padres, mas depois da independência e das nacionalizações foi feito casa de doentes e de curas. Não conheci um missionário revoltado com este desapossamento, “Se fizerem um bom uso, por nós está tudo bem”. E, penso eu, é o que acontece neste caso. O centro de saúde está ao serviço dos pobres e entre o pessoal médico e os religiosos reina um bom espírito de convívio, cooperação e entendimento. A irmã Maria, muito gentil, bondosa e serena, leva-nos a visitar os locais mais interessantes. Na fachada do centro de saúde destaca-se um alpendre sustido por quatro robustas colunas. Sob este abrigo, uma mamã entrega a sua mama a uma criança chorosa e nua, ávida de alimento, a qual, depois de começar a aspirar o leite materno, se tranquiliza e interrompe a reclamação. A directora do centro de saúde tem o conveniente nome de Esperança. É uma enfermeira jovem, alta e bonita, com a pele escura salpicada de sardas negras. Seguindo o seu passo, percorremos as várias salas. Aqui os doentes com malária, ali os nascituros e respectivas parideiras. Não chegámos à ala dos tuberculosos, por não ser certo e seguro o poderio do nosso sistema imunitário. O edifício também está enfermo. O estuque desmembra-se aos poucos, o chão é já irregular e desequilibrado. Não há nada que dure para sempre, salvo se a mão benemérita da continuidade for corrigindo, reparando, alimentando, adiando, enfim, o cumprimento da regra imperiosa segundo a qual tudo acaba um dia. Os medicamentos não abundam, bem como os meios de diagnóstico. Faz-se muito com pouco, ou não fosse essa a sina desta gente. Mas é precisamente isso que nos faz pensar. Pensar na incalculável capacidade do ser humano e em especial dos moçambicanos, nos quais, aos poucos, vou encontrando defeitos graves de mentalidade e postura perante a vida, mas, ao mesmo tempo, qualidades impressionantes, daquelas que nos infundem uma inveja saudável, daquelas que nos dão esperança sobre o futuro da humanidade. Em verdade, todo o ser humano é bom e mau, corrupto e impoluto, leal e traiçoeiro, certeiro e errante, filantropo e avaro, egoísta e despojado, todos, sem excepção de algum, reunimos estas virtudes e estes defeitos. O que nos diferencia não é, pois, a qualidade, mas antes a quantidade. O pendor daqueles defeitos e daquelas qualidades na nossa conduta define-nos e diz, a nós e aos outros, quem somos afinal. O ser humano é, assim, a maior contradição da história. E isto tem um respingo conclusivo que nos perfura como uma bala impiedosa: em verdade, não há quem seja absolutamente bom e, mais importante, não há quem seja absolutamente mau. Devemos pois ter esperança e continuar a acreditar na humanidade e, em particular, neste país, onde coabita o preguiçoso inveterado e o lutador sem armas, mas vencedor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim termina este capítulo de aprendizagem e conhecimento, desta feita perfumado por uma especialíssima companhia, tão profundamente espiritual e amiga. Da varanda do aeroporto, eu e o Arlindo observamos o avião da LAM atingir a velocidade da descolagem e, num testemunho de maravilhosa engenharia, levantar voo em direcção a Maputo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35757927-116539481529304846?l=negracaixa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://negracaixa.blogspot.com/feeds/116539481529304846/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35757927&amp;postID=116539481529304846' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116539481529304846'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116539481529304846'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://negracaixa.blogspot.com/2006/12/moambique-adentro-14112006_116539481529304846.html' title='Moçambique Adentro - 14.11.2006 a 18.11.2006'/><author><name>JMM</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14193583714694419729</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35757927.post-116539408706676695</id><published>2006-12-06T00:32:00.007-08:00</published><updated>2006-12-06T00:44:21.893-08:00</updated><title type='text'>Rainbow Nation - 10.11.2006 a 13.11.2006</title><content type='html'>Através das densas e húmidas nuvens, o pequeno artefacto voador desce titubeantemente em direcção ao aeroporto de Durban. A aterragem é comedidamente tranquila e, mais importante, efectiva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira gota desprende-se timidamente do extenso e cinzento céu. E como em tudo, há sempre um pioneiro, aquele que pisa o chão da dúvida e da incerteza, vence o medo do desconhecido, avança enquanto os outros apenas observam os seus passos. Não é melhor nem pior, é diferente, o que é muito. Muitas vezes, não é quem mais beneficia da sua audácia, mas fica na História, se isso é consolo. É seguido pelos seus irmãos e irmãs. A gota pronuncia a chuva e o céu amado e providente cai sobre a terra sequiosa. Em breve serão audíveis os coloridos cantares da natureza. E foi assim que a África do Sul nos recebeu, a mim e ao meu pai, com água, para nosso azar, segundo alguns, para nossa sorte, dizem outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A meio da manga que liga as zonas de embarque e chegada à parte comum do aeroporto, identifico um senhor sentado, de rosto afilado, óculos de massa, queixo proeminente e povoamento capilar incerto. “O tio está ali!”. Passou um ano e meio desde a última convivência. Nisto dos reencontros e despedidas, é cada um com a sua sensibilidade e, mais do que isso, é cada um com a sua maneira de a expressar. Ele levanta-se e dirige-se a nós, nós estugamos a passada na sua direcção. Entre sorrisos e emoções, lá chegamos aos fortes e fraternos abraços. Não é por acaso que a despedida é tanto mais suportável quanto mais consistente for a esperança no reencontro. Se deixamos de nos ver, ao menos que seja temporariamente, se possível, seja um repente, não pode é ser para sempre. E não foi, desta feita. Haja, e há, claro está, muita alegria nesta reunião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Avançámos, os três, no carro mais simples e mais económico do mercado, pelas vias mais perfeitas e pelo país mais desenvolvido de África. O alcatrão é liso e extenso, as vedações estão bem colocadas, a estrada é larga e apresenta excelentes condições. Aqui e ali, há provas irrefutáveis de bem-estar avultado. Estamos na Europa desenvolvida. “Isto parece a Suiça.”, ouve-se dentro do carro. E, de facto, nas primeiras impressões retemos colinas imensas pejadas de verde, tudo trabalhado e arranjado. A mão do Homem esteve neste lugar, e o que belo já seria mais belo se tornou. Casas lindíssimas ficam de atalaia a ver-nos passar e nós fazemos a vénia da admiração, apreciando este oásis de prosperidade nesta África deserto de fome. Acabaríamos por chegar a um grandioso e luxuoso centro comercial, graficamente chamado Pavilion. Aí almoçámos e confraternizámos, fizemos das notícias o prato principal. Partilhámos uma reconfortante garrafa de vinho sul-africano. Daí partimos, de espíritos abraçados, e entre contemplações e análises, o meu pai, “Já viste isto? Que país!”, e eu, “De facto, que país!”. Pensamos bem? Em Nampula, na casa dos missionários feita meu lar, vive um padre antigo, analítico e disciplinado, sábio de grande destaque nas línguas bantas. Sentados à mesa de refeição, reparei que ele perscrutava os mistérios da toalha. Pus nele os olhos, com curiosidade. Interrompeu a sua análise, “se olharmos, parecem quadrados, mas se olharmos e observarmos percebemos que são rectângulos.”.             &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A África do Sul foi, e continua a ser, um país seviciado pelos horrores da diferenciação racial. O território foi tomado pelos ingleses e holandeses (boers) a partir do século XVII em diante. Mais tarde, estes colonizadores envolveram-se em guerras independentistas, resultando do pleito a União Sul-Africana, uma nação independente sob a tutela da coroa britânica, em 1910. Como é do conhecimento geral, os ocupadores das terras africanas estiveram, normalmente, empenhados em pugnar pelos seus benefícios, desvalorizando a promoção humana dos autóctones. O resultado foi a instrumentalização destes ao serviço do bem daqueles. O raciocínio, ao contrário do advogado, ainda hoje, por alguns ilustrados académicos, é simplório e falho de boas intenções. O branco olhou para o preto e observou “Tu és o que fores para mim. Fora disso, és nada”. O racismo da agressividade e da destruição tem sempre na base o magno peso do egoísmo e da avareza. Veja-se, por exemplo, o poderoso interesse económico que esteve por trás do holocausto. Fossem os judeus pobres mentecaptos despojados de riqueza, e a sua religião, história e costumes nunca teriam incomodado alguém. Depois, é bem certo, há aquele racismo mais moderado, do qual todos padecemos um pouco, baseado no preconceito, na incompreensão e intolerância perante a diferença. Mas o mal daí advindo ao mundo seria suportável. E assim, quando cai o véu opaco dissimulante do negrume do espírito, a verdade desnuda e triste revela-se sem escamoteamentos, para nos dizer que boa parte dos grandes crimes da humanidade são motivados pelo verbo ter, em todas as suas possíveis conjugações. No ano de 1910, encetou-se a legalização do apartheid. Foi um chorrilho legiferativo de normas e regulamentos, leis e decretos, directrizes e comandos, tudo com o vil propósito de pôr cada um no seu lugar. Damos 90% da terra aos brancos e prendamos os pretos com o restante. Nós não vamos aos seus lugares e eles não se aproximam dos nossos. Nós ficamos com os meios de produção e reservamos-lhes os solos estéreis. Será melhor que não estudem, até porque não aprendem, e depois nem trabalham nem coisa alguma, é uma desgraça sem estribeiras. Enfim, criem-se dois mundos nesta terra, um da prosperidade e da bonança, outro da miséria e da exclusão. Mas, claro, eles podem desenvolver-se de livre vontade. Nada os impede. Lutem! Não os proibiram de correr, mas cortaram-lhes as pernas. Todavia, os colonos desenvolveram o país. Abriram corredores de alcatrão, edificaram cidades imponentes, fizeram proliferar as universidades e os hospitais, as escolas, os serviços, a indústria e a agricultura. Os embargos internacionais ao regime do apartheid muito contribuíram para o desenvolvimento económico. Se nada me vendem ou dão tenho de me ter com aquilo que há. E havia muito nestas terras. Em 1990, quase cem anos depois, a África do Sul passava a ser, legalmente, de todos os Sul-Africanos. Será necessário, agora, muito trabalho, tolerância, equilíbrio, disciplina e racionalismo para aproveitar tudo isto, para colocar tudo ao serviço de todos.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A propriedade de dimensões reduzidas onde se situa o espaço comboniano é formada por um inacabado rectângulo de três lados fechado por um semicírculo irregular. O complexo habitacional faz paredes-meias com um bairro muito pobre, por aqui chamado township. O sítio escolhido não é sujeição mas opção. Explica-nos o meu tio que assim estão perto das pessoas mais carenciadas. Por tecto, um primeiro edifício, de 10 por 60 metros, composto por tijolos muito rubros sobrepostos com segurança, mas sem exuberância. A sala e alguns quartos. O estilo é claramente britânico, é o rasto da história. Em frente, uma casa ampla, formando um espaço autónomo, onde reside a cozinha, a sala de refeições e mais alguns dormitórios. E, por fim, a igreja, cuja grandeza é mais relativa que absoluta, face à modéstia das restantes construções. Neste lar comboniano, vivem dois padres formadores, um pároco e uma dúzia de jovens dos três grandes continentes, todos aspirantes a missionários. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui, a missão é preparar vidas para a missão. A tarefa é altamente complexa. Educar é empresa de largo fôlego. Isto assim quando se ensina a querer, a ter, a abundância. Imagine-se agora o que será ensinar a abnegação, a privação, o sacrifício…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu tio entendeu, há muito, que o mais eficaz veículo de transmissão pedagógica é o exemplo. E assim, neste lar, a restrição e a frugalidade são a regra suprema imposta a todos. Desde a parcimónia na alimentação ao não uso de telemóvel, em tudo se contém, sempre sob o rigoroso critério da essencialidade. Se é estritamente necessário, há, se assim não é, esta casa não conhece o supérfluo. O haver é de todos e o não haver por todos é, desejavelmente, tolerado. É a austeridade auto-imposta que corre nas veias de uma racionalidade aparentemente complexa e peculiar, fundada na evidência de que o treino deve reproduzir, na medida do possível, a realidade. O princípio é, porém, de apreensão fácil. Quantos estão dispostos a desmontar o cavalo e subir para o burro, quando essa manobra não é imposta pelo inexorável curso da vida? E mesmo aqueles que têm, por regra, a albarda em cima do jumento, temem habituar-se aos intermitentes prazeres gozados, por sorte, em cima do palafrém. O meu pai brindou-nos com chouriços do lombo. Há uns tempos a esta parte, ao entardecer, vou à cozinha e convido o muito estimado senhor Alberto, cozinheiro da casa dos missionários, a comer três fatias da iguaria entaladas em pão de água. Bebo uma cerveja pelos dois, pois ele incorre no tenebroso desacerto da abstinência obstinada. Num dos aprazíveis banquetes, interrompendo um daqueles silêncios primorosos por vezes instalados entre pessoas que se querem bem, o senhor Alberto disse-me “João, isto não ‘tá bem. Não pode habituar ao que não é.”, “Ao que não é?”, “Sim, qualquer dia eu quer e depois não tem.” O princípio explica-se nesta singelez e simplicidade. Só não entende quem o não quer.       &lt;br /&gt;       &lt;br /&gt;Durban é uma cidade encantada pelos prazeres da maresia, pois só isto explica que se houvesse estendido até berma do areal extenso, o qual morreu de amores e casou com a translúcida água do Índico. As avenidas largas, os prédios altariços, bonitos jacarandás, alguma sujidade e por aí se fica. Fica, não sem antes se fazer a devida referência aos excêntricos transportes públicos. Carrinhas de 12 lugares artilhadas até às porcas que prendem os pneus. A chapa é a tela de artistas vanguardistas, onde estes inscrevem os mais inimagináveis desenhos. Do interior, estofado a preceito, provém uma música estridente, capaz de atordoar quem se abeira do veículo. Imagine-se o sofrimento dos que vão lá dentro. É costume ver algumas cabeças de fora, quer para se refrescarem quer para escapar à lesão dos tímpanos. Acima de tudo, não há quem não dê por conta da passagem do Chapa… Foram felizes esses momentos. Passeámos e conversámos, estivemos juntos e, no final de tudo, no final da vida, estas recordações e os sorrisos despertados são o grande troféu que levamos para o vazio.     &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1994, era eleito o primeiro presidente negro da África do Sul. Foi criada de imediato a Comissão Verdade e Reconciliação para julgar os crimes do apartheid. Quem assim o pretendeu veio perante os “juízes” e confessou-se, pediu perdão e voltou para casa. Só do génio de Mandela brotaria um tal primor. Discriminaram-nos, violaram-nos, ofenderam-nos, destruíram-nos, mas nós, agora donos e senhores dos destinos deste capítulo, apenas vos pedimos, com gentileza, que venhais perante nós, mostreis arrependimento, peçais desculpa e o vosso destino será vosso. E os brancos ficaram, continuaram a vida, com mais discrição e menos autoritarismo, no tremendo esforço de se tornarem iguais a estas raças inferiores. Mas a vida é assim. O Homem nunca é aquilo que quer ser e, por isso, raramente demonstra ser aquilo que é. O apartheid legal acabou. Os pretos, os mestiços (coloured) e os indianos podem viver onde puderem. Já não estão normativamente relegados para os guetos onde foram engavetados a bem da pureza das raças. Foram implementadas medidas de discriminação positiva, o black empowerment. Assim, nos concursos para os postos de trabalho, em circunstâncias iguais, os pretos, os coloured e os indianos, por esta ordem, são preferidos aos brancos. É uma discriminação positiva laboral em busca da equidade na distribuição dos recursos. Contudo, a preparação e a riqueza dos brancos não é comparável à dos restantes. Os pretos vieram para a cidade e os brancos foram para os arredores, onde construíram vivendas de luxo e muros enfeitados com arame farpado. Olham de soslaio para os estranhos, constroem locais de lazer acessíveis apenas a gordos molhos de Rand, contratam empresas de segurança, enfim, vivem prisioneiros na sua abundância e no seu passado. O apartheid é, agora, económico, mas não só. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No domingo de manhã, eu e o meu pai fomos com o simpático Pepe, o formador colega do meu tio, a uma missa num bairro que, nos tempos, era coloured. Nele só viviam e só podiam viver mestiços. Esses primos afastados da nossa superioridade, fruto de um tropeção sexual de um dos nossos ou de uma criada violada. Entrámos na igreja. Mais uma vez, a nossa alvura forasteira despertou as atenções. Estarão 100 pessoas nesta casa do senhor, cinco pretos, quatro brancos, entre os quais nós e o presbítero, e 91 mestiços. Não é por mal que nos olham. É por nos estranharem, tão-só. O Pepe discorre sobre aquela idosa que entregou à caridade tudo quanto tinha e de como isso a tornou grande aos olhos de deus. Antes de terminar a homilia, apresenta-nos à comunidade e somos alvejados na vergonha por um entusiástico e agradecido aplauso. Não sei o que terá pensado o meu pai, ou se terá pensado, tal era a emotividade do momento, mas eu, com palavras interiores, agradeci a sorte de estar perante a história. O apartheid continua e continuará por muitos anos. As leis abolicionistas são o começo e não o fim. A consciência, os preconceitos, os costumes e os ressentimentos são muito imunes ao positivismo normativo, mesmo quando com ele se constata, com clareza e evidência, a verdade absoluta de que todos somos iguais.           &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os três, no carro mais económico e simples do mercado, nosso fiel transporte, subimos pelas boas estradas de KwaZulu-Natal, província da qual Durban é capital e onde se situa Pietermaritzburg, a cidade hospedeira da casa dos missionários. As rodas rodam vagarosamente, trepando a inclinação acentuada do piso. A chuva e a névoa são nossas parceiras de expedição e poucos deleites permitem aos nossos olhos. Mas de repente, como se tudo estivesse programado, a água contém os seus movimentos por alguns minutos, o nevoeiro faz-se em brisa agradável e à nossa frente surge Drakensberg, uma cordilheira maravilhosa, despertadora de emoções inauditas e de sentimentos ecléticos. Os montes seguem-se às montanhas, um tapete de verde nunca visto estende-se por todo o lado. O horizonte é verdadeiramente infinito. Fico com a clara sensação de que este paraíso não tem fim e pela primeira vez compreendo o significado da tão falada magia das paisagens africanas. Esta experiência sensorial detida ao nível da visão é profundamente arrebatadora, estimula-nos o espírito até ao mais poderoso dos estremecimentos, diz-nos da nossa pequenez. Morre-se hoje, hoje, cem ficam chocados, amanhã, lamentam noventa, ao terceiro dia, choram trinta, ao quarto, lembram-se dez, um ano passou, e desaparecemos, excepto naqueles pouquíssimos corações que nos guardam para o sempre da sua finitude. A nossa relevância é microcomunitária, subjectiva e pouco mais O meu tio pergunta-nos se não vemos Deus nesta paisagem. E, de facto, perante este cenário, difícil é não nos questionarmos sobre a intervenção de uma mão grande e boa na beleza plena deste lugar. Olho, mais uma vez, antes que o nevoeiro regresse e o momento se perca. Daqui, de onde nos pomos, a vida é bela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, eu e o meu pai havíamos de ser brindados com horas de espera no aeroporto. O mau tempo ou uma avaria impediu o avião de levantar, e tal era a tenacidade da obstrução que nos instalaram num bom hotel e nos mandaram esperar para outro dia. Noutra circunstância, com outra companhia, teria caído o Carmo e a Trindade, mas desta vez nem por isso. Estamos juntos e, afinal, isso é o importante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jantámos num dos vários restaurantes do Hotel. Comida a rodos e para gostos variados. Receitámo-nos mais um dos muito bons vinhos da África do Sul. Refastelámo-nos com avidez. Segundo o adágio, há males que vêm por bem. E assim foi, desta feita. Para além dos saudosos momentos de convivência e confraternização, um último e belo quadro sul-africano haveria de se nos apresentar, para bem das nossas recordações. No restaurante onde jantámos, todos os muitos comensais eram brancos. O escurecimento da tez pairava apenas nos empregados e no gerente, mas o castanho deste era asiático. Contudo, numa mesa perto de nós, um senhor especial, um estrangeiro naquele lugar, uma carta fora do baralho, um negro. As suas mãos, grossas e mal jeitosas, guardam as marcas de uma vida de trabalho. Segura os talheres de forma tosca, muito abaixo. Quando ingere, inclina-se sobre o prato, quase beijando os alimentos. A alface indomável, antes de chegar à cavidade bocal, deambula numa refrega insubordina entre os dentes e os lábios, até que estes vencem a luta e a sugam. Pediu um sumo, bebe-o até à última gota, e a mistura de ar e liquido em ascensão através da palhinha produzem aquele agradável ruído que já valeu a tantas crianças a repreensão dos adultos mais irritadiços e veneradores da etiqueta. Por vezes, desvia os olhos da comida para passar em revista o universo circundante, numa rotação ocular esporádica, célere e envergonhada. Chega a conta. Não sabe lê-la. Vem o gerente e, muito discretamente, tudo lhe explica com delicadeza e elevação. Paga, levanta-se e segue o seu caminho, passo a passo, no trilho da igualdade.        &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim terminou uma visita que nos deu tanto de esteticamente belo como de profundamente educativo. Pressinto em mim e no meu pai uma conclusão que ultrapassa o raio de visão dos nossos olhos. A verdade, extirpada de sofismos e de gargantas labiosas, é que entre os missionários religiosos e laicos, dentro e fora do seu país, entre aqueles que entregaram a vida a uma causa, a uma missão, social ou política, há um restritíssimo grupo de pessoas cuja única felicidade almejada foi a felicidade dos outros. Algo superior parece ter estado com eles e junto daqueles que com eles estiveram. De facto, na vida destes seres humanos, terá havido momentos em que só uma fé ou espiritualidade profundas poderiam garantir a sanidade. Só algo de transcendente e inacessível poderia, nestas condições, suportar estas mulheres e estes homens. Esta estatura e estrutura não se ensinam, antes jazem calmamente nos genes desde a milagrosa fusão nas trompas de Falópio, até que um dia, por magia, despertam, e aí temos um ser humano capaz de mudar um dos infinitos cursos da história. Não obstante, tudo tem um preço: a inviolável probidade e a intocável coerência só vivem no espírito e nas acções de quem está disposto a morrer…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os motores do avião da British Arways levantam o gigante num estertor poderoso. No chão deixamos um país de lindas e múltiplas culturas, raças e cores, uma criança repleta de inseguranças e contradições que, lentamente, procura levantar-se e caminhar com firmeza em direcção a um novo Sol, lavado e debotado pela chuva imaculada, formando a desejada a Rainbow Nation.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35757927-116539408706676695?l=negracaixa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://negracaixa.blogspot.com/feeds/116539408706676695/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35757927&amp;postID=116539408706676695' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116539408706676695'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116539408706676695'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://negracaixa.blogspot.com/2006/12/rainbow-nation-10112006-13_116539408706676695.html' title='Rainbow Nation - 10.11.2006 a 13.11.2006'/><author><name>JMM</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14193583714694419729</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35757927.post-116184806492543792</id><published>2006-10-26T00:33:00.000-07:00</published><updated>2006-10-30T22:49:20.770-08:00</updated><title type='text'>A Meia-Maratona de Nampula (Curta-metragem) - 12.10.2006</title><content type='html'>Um dos maiores e mais caricatos vícios dos países pobres é imitarem os países ricos. A enternecedora e ridícula mania das grandezas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Moçambique, 12 de Outubro é o dia do professor. Num país em que tantos docentes são corruptos, coagem moral e sexualmente as alunas, nada mais adequado do que um dia para os louvar. Faço mal em tomar o todo pela parte, porquanto, como é evidante, também há professores justos, amigos dos alunos, que lutam por um moçambique instruído, contudo, mesmo assim, teria preferido o dia contra a promiscuidade no ensino. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saímos cedo de casa e, antes de irmos para faculdade, parámos numa estação de serviço para abastecer. Ainda tomado por esse lento processo do despertar, aguardo ao volante pelo empregado da bomba. Contudo, em breve seria chamado à espertina máxima, para apreciar um dos momentos mais hilariantes da curta passagem por este peculiar lugar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa das artérias principais da cidade, circula vagarosamente uma mota, ocupada por um airoso agente da polícia, impecavelmente fardado e impassivelmente concentrado no seu cimeiro dever. A sirene e a luz intermitente propalam a presença da autoridade, obrigando automóveis e transeuntes a afastarem-se, a pararem, sobretudo, a não incomodarem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso «Deve vir aí o governador ou algum ministro». A mota abre este leito límpido e desértico porquanto, 50m. antes, dois corredores suados e dotados de uma acentuada escoliose, palmilham paulatinamente a cidade, realizando um percurso predefinido, participando numa prova de atletismo organizada para saudar o muito indispensável dia do professor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensei «Aí estão os líderes da corrida». Passados 10 segundos, surgem mais dois intrépidos maratonistas derreados pelo cansaço, exaurindo, neste momento fundamental das suas carreiras, as suas valiosas reservas energéticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensei «Aí estão mais dois que se destacaram do grupo». Em África, a presciência do europeu é, muito frequentemente, um passo em falso. Com efeito, 50 m. atrás deste dois perseguidores, segue uma mota, ocupada por um prestimoso agente da polícia, solenemente fardado e imperturbavelmente concentrado no seu altaneiro dever. A sirene e a luz intermitente propalam a presença da autoridade, fazendo notar aos automóveis e transeuntes que a festa acabou, “Podem voltar a circular normalmente”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Colocou-se a seguinte questão: há quatro tipos que pretendem correr na maratona do dia do professor. Vamos parar o trânsito de uma cidade inteira por causa deste evento e, além disso, vamos afectar à organização as únicas duas motas da polícia existentes nesta província? Vamos a isso. &lt;br /&gt;    &lt;br /&gt;Neste continente de extremos, é preciso joeirar muito para encontrar um grão de razoabilidade. E eu, já não tão recém-chegado, só peço aos meus quadros mentais que não se deturpem e me permitam continuar a gozar estes momentos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35757927-116184806492543792?l=negracaixa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://negracaixa.blogspot.com/feeds/116184806492543792/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35757927&amp;postID=116184806492543792' title='6 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116184806492543792'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116184806492543792'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://negracaixa.blogspot.com/2006/10/meia-maratona-de-nampula-curta.html' title='A Meia-Maratona de Nampula (Curta-metragem) - 12.10.2006'/><author><name>JMM</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14193583714694419729</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35757927.post-116184798403448349</id><published>2006-10-26T00:31:00.012-07:00</published><updated>2006-10-26T06:04:29.183-07:00</updated><title type='text'>Reginaldo - 08.10.2006</title><content type='html'>Por trás da moderadamente bem-parecida Academia Militar, no frontispício da qual brilha um entumecido retrato de Samora Machel, estende-se um vasto bairro de adobe e capim, por vezes zinco, ao sabor das posses. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra lição concedida pela observação da pobreza é esta do fosso fundo entre o desprovido do campo e o miserável da cidade. Para os habitantes rústicos, vem uma malária e logo se vê São Pisco preparado para levar dois ou três. Mas há onde cultivar, é, por vezes, possível domesticar as agruras mais selvagens da fome, há, a bem dos sentidos e do espírito, um tranquilizante bucolismo, um suave verdejar, o famigerado pôr de Sol mais belo do mundo. Na cidade, o cimento erecto e o alcatrão estendido não são tão generosos como a milagrosa natureza. Os bairros pobres estão putrefactos e são, em regra, o confortável lar de ratos, de parasitas, de doenças, enfim, das pestes do físico e da moral. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A carrinha avança renitente por entre os casebres descorados e desagradáveis. Depois de ter assistido a mais uma missa “étnica”, o Arlindo perguntou-me “Queres ir ali a casa de uma viúva que estou a apoiar? Tem um filho doente, problemas na casa, etc., e pediu-me ajuda. Vou lá ver se é possível fazer alguma coisa. Queres vir?”. E, feito o prelúdio, a carrinha avança renitente por entre os casebres descorados e desagradáveis. “Bom, é aqui”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa - usando o pincel eufemista – é feita de envelhecidos tijolos de areia encarnada. As folhas de zinco dispostas triangularmente fazem as vezes de um telhado esfarrapado, obstipando com dificuldade a chuva, convidando as farpas sufocantes do calor. As paredes não encerram uma área superior a 25 m2, dividida desigualmente por uma única vez. No interior, o chão cimentado mas irregular é o auge do luxo, ao passo que a estrutura vertical se esboroa e se enche de porosidade, permitindo a invasão imperial de térmites e outros asquerosos comparsas da penúria. O curto terreno onde este lar foi erigido ainda deixou espaço para um ínfimo quintal. Aqui, um desengonçado alpendre cobre a quase inexistente cozinha, acusada apenas por um pote curvilíneo de barro enegrecido, no qual uns parcos grãos de arroz se dilatam, desafiando a frugalidade do alimento. Ao lado, foi erguida uma estrutura paralelipipédica formada por quatro tabiques de capim, tendo sido recortada uma porta irregular num deles. É a latrina. Logo à entrada, o mistério da vida manifesta-se uma vez mais: num charco negro e nauseabundo, uma colónia fétida e repulsiva de insectos alimenta-se do desperdício humano. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro da cozinha, um imberbe, detentor de um passado pouco superior a um ano, acaricia com as gengivas a metade ressequida e retardada de um pão de água, olha-nos transido, estranhando os intrusos. No chão do quintal, três crianças recriam-se com berlindes. O maior, o Abafador, afasta os mais pequenos, não lhes permitindo chegar à cova feita objectivo, nesta expressiva e fiel reprodução da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitado numa pequena elevação de cimento que bordeja toda a estrutura da casa, exteriorizando dor e lamento, absorto num frenético resfolegar, cobrindo a sua inocente nudez com uns calções trinchados e fustigados pelo uso, está Reginaldo, o enfermo. No flanco esquerdo do pescoço, um inchaço esférico, da dimensão de uma tangerina em Janeiro, é a causa do padecimento.&lt;br /&gt;Vive com a mãe, três irmãs, três irmãos, dois sobrinhos, dez pessoas, cada um com o seu feitio, se sonhassem, cada um teria os seus, cada um deles postergado à sua insignificante singularidade, mas todos, sem excepção, pobres onde a ideia de pobreza não chega. A casa, hoje precisada de manutenção, foi comprada e oferecida pelo Arlindo, que lhes dá uma mensalidade de 800Mt. (€ 24) para sobreviverem, ou, mais correctamente, para cravarem as unhas encardidas na montanha escorregadia que é esta existência. E não se estranhe a pequenez da doação, em verdade, os recursos têm este grave defeito da escassez, e não é só o mal que se distribui pelas aldeias, havendo justiça, também o bem merece tal sorte. E se o país é rico em alguma coisa é em histórias de pobreza degradante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reginaldo estava naquele estado havia duas semanas. Os comprimidos receitados por algum ignaro herdeiro de Hipócrates tinham permitido a proliferação da infecção. As dores tomavam fôlego e cresciam desabridamente, provocando-lhe prostração e languidez. Além do padecimento, havia uma ralação a atormentar Reginaldo. No dia seguinte, faria exames determinantes para passar de classe, e aquele mal-estar era mais uma voraz ameaça para um sucesso escolar já amplamente seviciado pela miséria. Nesta criança de 9 anos, um físico débil e uma saúde incerta coabitam com uma mente conscienciosa bafejada por um inusitado sentido de dever. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo ali se trocaram projectos e propostas, pedidos e ordens, súplicas e lembranças, até que o Arlindo consentiu e decidiu que levaríamos Reginaldo ao sinistro e tenebroso Hospital Central de Nampula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este estabelecimento de saúde, certamente o melhor da região norte, situa-se numa zona nuclear da cidade. Quando nos aproximamos, percebemos que o edifício se projecta por uma razoavelmente extensa ladeira, dando assim a ideia de uma construção em crescendo. A fachada, dotada de um perfumado aroma colonialista, impressiona positivamente o observador. Segundo me explicou o Arlindo, a arquitectura interior é um exemplo soberano de excelência da construção hospitalar. Foi dado o primado à optimização funcional do edifício, obtendo-se deste modo uma intrincada mas prática rede de rampas, corredores, salas e divisões, tudo ao serviço dessa tão nobre missão que consiste no sublime gesto de curar e dar vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O largo da entrada, ainda na zona baixa, é servido por um gigante semicírculo de alcatrão cujo centro é a entrada para as urgências. Assim, os veículos que transportam doentes entram pela abertura esquerda do círculo, param a meio e largam os passageiros, completando posteriormente este circuito curvilíneo até à saída, do lado direito. Enfim, um esplendor modernista do pragmatismo arquitectónico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer por vezes o futuro mostrar-se quando ainda gastamos o tempo presente. A isso se chama presságio, e foi assim que entendi as fétidas lixeiras fabricadas na orla dos muros hospitalares, das quais exalava o agressivo odor da morte, da putrescência, possivelmente expelido por alguns animais sem vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrámos no Hospital com Reginaldo. Um largo corredor, dividido em dois, triagem agora, salas de tratamento depois, acolhia os pacientes, ficando uma vez mais patente a imagem de uma máquina bem pensada. Na primeira divisão, do lado esquerdo postavam-se três diminutos compartimentos, privados dos olhares mais curiosos por cortinas celestes de pano esgaçado. Supostamente, era ali o lugar da triagem e do encaminhamento. Em oposição estavam quatro filas de cadeiras, nas quais alguns rostos sofridos aguardavam a chamada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pagámos a taxa moderadora, 1 metical, três dos nossos cêntimos. Contudo, este parco peditório é como a borrasca que antecede as bátegas. Olhando bem, vejo, logo à entrada, dois homens vestidos de branco, numa agradável conversa, intercalada por leves sorrisos instantaneamente convolados em fartas gargalhadas, enfim, um pasmo de boa disposição e de bem-viver. Eram os enfermeiros responsáveis pela triagem, envolvidos neste alegre tagarelar, enquanto os doentes esperavam, aguardavam, petrificavam, até que o assunto terminasse. Vendem caro aquilo que devem. Entregues ao vício e ao ócio, fogem à obrigação agravando com isso a desgraça alheia, na espera de súplicas e clamores para porem termo à inacção, na qual se incrustam pedaços enormes de sujidade moral e legal. Mas estes, ao contrário de outros que se contentam com venerações e preces, exigem dinheiro a quem nada tem. Se querem a minha atenção, façam o favor de me subornarem, de me pagarem, de me darem o que têm, de outra forma, nada feito. Não se pode generalizar, porque é injusto e inexacto, mas se isto acontece uma vez que seja, já é grave.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta sorte, o rosto branco do Arlindo e a sua condição de Padre obviaram aos trâmites costumeiros da peita, “Ó meu irmão, anda cá. Vê aqui este meu filho, se fazes favor”.Feita a triagem em menos de um ápice, ultrapassando esperas e demoras, lá se concluiu que era necessário drenar o pus. Se em Portugal o apadrinhamento é, em regra, a condição do sucesso, a diferença entre viver bem e viver mal, aqui, pode muito belamente ser a diferença entre estar vivo ou estar morto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ultrapassado o primeiro obstáculo, tivemos o merecido acesso à segunda divisória do corredor, onde, segundo as normas e os regulamentos, se enceta o verdadeiro processo de cura, ou o paliativo, ou, não excepcionalmente, o degenerativo.             &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do lado direito de quem entra, três senhoras e um casal aguardam vez. Do lado esquerdo, deparo com um cenário macabro. Numa maca com as pernas comidas pela ferrugem, está uma senhora a dormir o seu último sono, o da eternidade. À excepção dos pés, e é neles que leio o género do defunto, todo o seu corpo está tapado por um lençol de um falso e esbranquiçado linho, e aguarda, tal como os vivos, mas destarte para que um conhecido ou familiar venha reconhecer o vivo a quem pertenceu aquele nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa das portas cerradas pode ler-se um aviso: “Este serviço é gratuito. Combata a angariação ilícita”. É preciso acreditar que não há alguém a quem tudo se aproveite e alguém a quem tudo se despreze...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Arlindo entra na sala de serviço com Reginaldo pela mão. Uma enfermeira, confortavelmente sentada numa cadeira, com as pernas esticadas sobre um banco, olha os invasores num espanto balofo e tosco. “Minha irmã, veja aqui este meu filho. É preciso drenar esta infecção”, “Ah… Pois, mas não temos lâminas aqui nas urgências. Se o Senhor Padre arranjar uma lâmina, talvez se possa fazer alguma coisa”. E lá partimos nós para casa, e lá regressamos nós ao hospital, cada um empunhando a sua lâmina de barbear, vociferando, aviltando, maldizendo este tristíssimo episódio, que nem a miséria das misérias justifica, só o desleixo, a incompetência, a falta de brio, a cretinice, talvez a maior e mais séria das pobrezas, que é aquela que nos assola impiedosamente o espírito, talvez só isso sirva de moldura a este expoente do surrealismo. Contudo, e por vezes o sol caloroso intromete-se no reino da tempestade mais tenebrosa, algum ideólogo audaz tinha ido ao bloco operatório alugar um bisturi, e, finalmente, tudo estava a postos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Anestesia? Não, isso não temos. Vamos cortar assim”. Deitado na maca sobre o braço direito, Reginaldo espera a investidura lancinante. Tudo se inicia serenamente. O Arlindo segura a mão da criança, promete-lhe bolos e refrescos quando tudo terminar, enquanto o enfermeiro destacado para a grande empresa inicia a operação. O Arlindo repete as promessas alimentícias incessantemente, pensando, e bem, que, por vezes, antecipar um prazer futuro é a única forma de estancar uma dor presente. Reginaldo cerra os dentes, lança aos meus olhos um estrépito surdo de dor, junta os lábios grossos, e dos seus olhos desprendem-se lágrimas de estoicismo inauditas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, distraio-me com as cavaqueiras circundantes. “Foi um familiar do campo que me pediu para vir aqui. Começou a sentir-se mal, a vomitar, febres altas, esteve assim uns dias, não arranjavam maneira de a trazer aqui, perdeu os sentidos e acabou. E agora pediram-me para vir aqui reconhecê-la”.Talvez aquela senhora fosse um ninho malárico, talvez tivesse cura, mas quanto vale a vida de um pobre?   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo terminaria em bem. É certo, nem Reginaldo estava a morrer nem foi colocado perante uma provação nunca antes vista. Todavia, o valor de uma história está muitas vezes no que não nos diz, nas hipóteses sugeridas, está nesta profunda magia de nos mostrar o que não é através daquilo que é. Aqui, é corrente dizer-se que estamos nas mãos de deus. Se a maleita for para deitar por terra, neste lugar, a ciência não é mágica e pode muito pouco. De facto, ou nas mãos de deus ou nas palmas trémulas e viciadas da sorte. Deus ou a sorte, escolha.           &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parámos numa pastelaria, e, conforme prometido, foram comprados bolos e os refrescos anestésicos para o enfermo e sua família.    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentado no banco traseiro da carrinha, Reginaldo, com a lástima e a exclusão estampadas no rosto, contempla laconicamente os movimentos irregulares dos edifícios, das árvores e dos bancos. Esta criança, a quem a fome não deu sofreguidão, mastiga calmamente a massa dourada do bolo e engole serenamente o refresco convalescente, ao mesmo tempo que pela sua face negra e rutilante desliza a última lágrima do padecimento físico ou a primeira das muitas espremidas pelo desventrado coração. E quem diz que o choro dos velhos é a maior das tristezas sensoriais ainda não viu Reginaldo chorar.            &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A carrinha avança renitente por entre os casebres descorados e desagradáveis. “Bom, estamos de volta”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35757927-116184798403448349?l=negracaixa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://negracaixa.blogspot.com/feeds/116184798403448349/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35757927&amp;postID=116184798403448349' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116184798403448349'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116184798403448349'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://negracaixa.blogspot.com/2006/10/reginaldo-08102006_116184798403448349.html' title='Reginaldo - 08.10.2006'/><author><name>JMM</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14193583714694419729</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35757927.post-116184786095031079</id><published>2006-10-26T00:30:00.000-07:00</published><updated>2006-10-26T00:31:00.956-07:00</updated><title type='text'>Um Cibernauta em Moçambique - 02.10.2006 e 13.10.2006</title><content type='html'>A mais moçambicana das palavras portuguesas é “flexível”. Isto assim em tão larga escala que o seu uso já violentou todas as iniciais regras da semântica, atribuindo-lhe uma magnitude polissémica de abrangência universal. Afinal, tudo o que não é mau é flexível, tudo pode ser assim ou pode ser assado, se corre razoavelmente, é flexível. Portanto, flexível é a adjectivação da positividade, agora, o seu exacto significado, isso não sei! “O exame era fácil?”, “Era flexível”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, nem a maior indefinição linguística da história poderia arredar-nos do caminho da perscrutação. Pelo visto e, ouve isto, ser flexível é ser maleável, é ser bom, é ser descontraído, é ser parco de regras, é ser conformado, é ser submisso, é dançar com a barriga ao estalo, é, enfim, viver despreocupado, sem programar. Aos olhos de um estrangeiro recém-chegado para umas prazenteiras férias, esta flexibilidade é encantadora. Mas quando se começa a gostar e a admirar este povo, tanta flexibilidade causa certo prurido, depois irritação e a seguir intolerância. Com efeito, do outro lado desta flexibilidade, deste conformismo, desta submissão, desta indiferença, deste deixa andar, está a miséria, a pobreza extrema, as barrigas dilatadas, as crianças de rua, está um dos países mais pobres do mundo, que deve muito do seu mal ao que lhe fizeram e fazem e outro tanto ao que por si não fez nem faz.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se há regra sem excepção é essa que nos diz dos lugares medianos frequentados pela virtude. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta terra, tudo é programado ao mais ínfimo e detalhado pormenor. Há muitas reuniões. Desfruta-se incomensuravelmente do acto de reunir. E dão nomes pomposos a cada encontro: “Alto convénio trimestral para a implementação, coordenação e reorganização do plano hídrico da região nordeste de Nampula”; “Suma reunião para a definição, concretização e divulgação da metodologia pedagógica adoptada pela província de Nampula”. Podia, sem grande esforço, encher páginas e páginas destes garbosos epítetos, capazes de atafulhar de soberba a mais humilde das reuniões. Todavia, para além da inchada sonoridade, pouco resta, tal é a frequente inconsequência desta profusão de convenções. O plano, para alguns, é um instrumento indispensável ao rigor e ao sucesso, mas para outros é tão-só um grotesco expediente para embuçar a inércia com uma cinética estéril. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, quando alguém diz “isto vai ser assim”, ou, “vamos combinar assado”, pode ser assado ou assim, mas, seja como for, “num tem problema”, o povo é sereno e, sobretudo, perturbadoramente Flexível.       &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A programação, o aprazamento e o acordo desempenham, na organização deste quotidiano, o mesmo e nobre papel que, nos enterros, é oferecido à viola. E nisto dou por mim nas malhas intrincadas do exagero e da caricatura, mas esta é tão-só a hiperbolizada acutilância crítica que se forja no seio terno e por vezes injusto da benquerença.     &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte à chegada a Africa, quero logo sentir-me na Europa, no mundo conectado e em permanente convívio. “Posso ir à Internet, Arlindo?”, “Claro, mas estamos com problemas na linha, se calhar não consegues ligação. Aqui, é tudo intermitente, umas vezes funciona bem e outras nem por isso. Vai-te habituando”. Bom, não morrerei por viver uns parcos dias no isolamento informático.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entro na Faculdade e dirijo-me à sala de informática. Estou feliz por consultar o e-mail. Cheguei há três dias e ainda não atingi o mundo elevado e superior das tecnologias, do imediatismo, da impaciência. “Olá, Willy, tudo bem? Posso utilizar um computador para ir à Internet?”, “Xi, não vai dar, estamos com um problema no servidor e não temos ligação há quatro dias”. E eis-me brâmane em exercícios de domínio da emotividade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em conversa com o Sr. Alberto, ilustre e excelente cozinheiro da casa dos missionários, do qual havemos de falar um dia, adepto fervoroso do FCP e grande fã do futebol português, “Agora, ando triste. A antena da RDP avariou e não posso ouvir os relatos. Pode estar assim mais de um mês. Ainda por cima perdi o calendário e agora não sei quais são os jogos”, “Não se preocupe, eu arranjo-lhe já um calendário. Amanhã vou a um café com Internet e trago-lhe isso”. Quem conta com os sapatos do defunto arrisca-se a morrer descalço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E finalmente acedo à Internet nos serviços da Teledata. “Gostaria de imprimir um documento, é possível?”. A jovem empregada, autora da lamentável opção de misturar uma belíssima tez acastanhada com desfigurados caracóis dourados, “Está em que computador? Ah, pois, esse não dá, é o único. Leve uma disquete, grave o documento e traga-o que eu imprimo-o aqui no meu”... “A disquete que me deu não funciona, tem outra?”, “Claro, aqui está”... “Esta também não funciona”, “Tem uma flash?”, “Sim”, “Então tente com a flash”... “O computador não aceita a flash”, “Ah…, estranho, deve ser o único”. E o Sr. Alberto, tão cioso do seu futebol, tão empenhado em acompanhar passo a passo o caminhar vitorioso do seu FCP, terá de aguardar mais uns dias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Bom, isto não é vida! Preciso de um serviço de Internet disponível para os meus caprichos cibernautas». Durante a viagem, quando já me enfastiavam todos os livros, acabei por folhear uma revista da LAM, onde li que a Vodacom disponibilizava um serviço de Internet através do telemóvel. Ora, lamentando este desencontro doloroso com as telecomunicações, decido investir e compro um cabo USB (€15!) para fazer as ligações necessárias. “Dispositivo desconhecido”. «Ainda bem que estou em Nampula, terei facilidade em resolver o problema». Entro numa pequena loja benzida “Clínica dos Computadores” por alguma mente metafórica, e o aspecto claro e arrumadinho do estabelecimento renova a esperança e rejuvenesce as expectativas. “Bom dia. Como está?”. Sentada numa aprumada secretária, a agradável e delicada jovem informática, “Bem, não sei do seu lado”. “Tenho um problema com o meu computador. Quero ligar-me à Internet através do telemóvel, mas recebo a indicação de que o dispositivo é desconhecido. Podiam ajudar-me?”, “Não sei do que está a falar, lamento”, “Não sabe, mas diz aqui que vocês são uma clínica de computadores!”, “Pois, mas não conheço essa tecnologia. Tenho pena”, “Muito obrigado, então”. Mais tarde, a falha desta ligação telemóvel/computador veio a revelar-se no primeiro e, para variar, a inaptidão estava no meu material.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dias passaram, passou-se tempo onde o tempo parou, até que entrei na Faculdade, dirigi-me, como todos os dias, à sala de informática, e, como sempre, num rumorejo desalentado e exasperado, “Bom dia, Willy. Então, já temos Intenet?”, “Sim”, “E que tal”, “Está muito flexível”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35757927-116184786095031079?l=negracaixa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://negracaixa.blogspot.com/feeds/116184786095031079/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35757927&amp;postID=116184786095031079' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116184786095031079'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116184786095031079'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://negracaixa.blogspot.com/2006/10/um-cibernauta-em-moambique-02102006-e_26.html' title='Um Cibernauta em Moçambique - 02.10.2006 e 13.10.2006'/><author><name>JMM</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14193583714694419729</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35757927.post-116184747622887376</id><published>2006-10-26T00:22:00.003-07:00</published><updated>2006-10-26T06:53:50.736-07:00</updated><title type='text'>Os Primeiros Contactos com a Faculdade de Direito da Universidade Católica - 02.10.2006 a 13.10.2006</title><content type='html'>A pueril Faculdade de Direito da Universidade Católica de Moçambique encontrou poiso agradável e prometedor naquele que em tempos coloniais foi o Colégio Vasco da Gama, propriedade da diocese, regido por instituições religiosas, uma instituição de referência no ensino. É pois um edifício pejado de portugalidade. As paredes são altas, as salas estão bem dimensionadas, há anfiteatro, há biblioteca, há sala de informática, a estrutura goza de boa saúde, tudo visto, é um sítio onde o trabalho pode ser frutífero, assim esbracejem e se multipliquem os parcos ramos da árvore. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os recursos materiais não abundam. Com propinas cifradas entre os 500 e os 1.500 USD/ano, mas com um número reduzido de estudantes, parece ser árdua a empresa de erigir uma próspera e bem servida instituição de ensino superior. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A biblioteca é um pequeno e agradável espaço no qual pouco mais de 1000 obras servem o ávido intelecto de alguns e o doce cumprimento da obrigação da maioria. Se tivermos em conta que parte esmagadora da população estudantil está tão perto de poder adquirir um manual como o ermo e glacial Plutão está do ígneo e portentoso astro solar, vemos com clareza o quão essencial é este depositário de sapiência. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É neste sítio que passo a maior parte do meu tempo. No dia 02.10.2006, “Talvez fosse bom atribuírem-me um gabinete”, “Sim, sim, vou providenciar”. No dia 13.10.2006, “Seria mesmo bom ter um gabinete”, “Sim, sim, de segunda-feira não passa, isso é certo”. Protesto e barafusto, mas sorrio por dentro, pois a festa é da paz e da tranquilidade. De facto, não passou de segunda-feira, e posso, com justiça, apregoar dizeres laudatórios sobre o meu gabinete: grande, arejado, com uma belíssima vista, deitada suavemente sobre uma fileira de coqueiros que correm para a Serra da Mesa.    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem mergulhar em inférteis e incautas generalizações, não estarei a exagerar se disser que parte significativa do Ordenamento Jurídico Moçambicano é um antiquário do Direito Português. Os códigos nucleares, a legislação estruturante do funcionamento judicial do país… Enfim, continua viçosa uma vasta plantação de Decretos e Leis, Portarias e Regulamentos, que não foi ceifada pelo processo de descolonização, que se não desfez nem logrou regressar à procedência numa insegura e indesejada ponte aérea. Os cultores da história recente do Direito português poderão, com proveito, concretizar o velho sonho de H.G. Wells e fazer uma viagem no tempo da jurisdicidade. Neste recanto do planeta, os idos e ilustres mestres do Direito português, por vezes esquecidos nas prateleiras das nossas modernas bibliotecas, encontram uma renovada vida, um último sopro, vestem pela vez derradeira o honroso e prezado traje da referência intelectual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O povo moçambicano tem o dom do acolhimento, um especial cumprimento que nos envolve e faz sentir em casa. É a luz do sorriso, o dos simples, que se esparge, banha e lava a alma. E assim, as recepções são em geral calorosas, amistosas, daquelas que nos fazem sentir em casa. Ao invés, não é apetecível a reputação com que os congéneres portugueses acarinham o estudante da África lusófona. Uma complacência risonha para com uma congénita ortografia bamba e uma gramática falha de rectidão. Uma indulgência simpática perante uma inalterável profundidade científica suspensa à superfície do mar do conhecimento. Porém, é precipitado e erróneo este nosso, meu, juízo, esta rotulagem diminutiva que fazemos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando pensamos na pobreza africana, a primeira imagem que nos arrasa é a da criança esquálida, quase esqueleto, prostrada em posição fetal num imenso deserto lavrado por estrias, à espera da bênção da morte, enquanto um abutre, espelhando uma inefável indiferença, aguarda tranquilamente que a desigualdade, essa dotada cozinheira, termine a confecção do seu repasto. Mas a pobreza ultrapassa este cenário chocante. O pobre deve a sua condição à exploração, à indiferença e à destruição alheias, mas também à sua falta de capacidade de explorar e desbravar, de se interessar e conhecer, de fundear e construir. Ora, num país pobre, tudo é subaproveitado, a começar pela inteligência. E assim, desenganando-me, concluo verdadeiramente que o estado cultural e intelectual não é congénito e inalterável, mas sim conjectural e mutável. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os rigorosos e bem definidos contornos da verdade são muitas vezes destorcidos pelo imediatismo em que descansamos, como se os “ques” pudessem dispensar os “porquês”, assim, como se a água pudesse desprezar a fonte. Na boca de alguns o fenótipo do vício é a virtude, mas no espírito de outros o vício aparente é a virtude em progressão.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em suma, a verdade é que a circunstância onde se insere o estudante de um país africano subdesenvolvido é profundamente distinta da nossa, chegando a roçar, aos olhos de um europeu, as franjas delirantes do surrealismo.        &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejamos o caso de Afonso, que têm de fictício o nome que lhe dou e de verídico as histórias que ouvi. Encetou a aventura estudantil com 8 anos, numa escola pública, na qual, uma professora voluntariosa, com a 6ª classe concluída, lecciona um português de ortografia bamba e uma gramática falha de rectidão, bem como uma matemática de números travessos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi andando e andando, sempre assistido por docentes que resgatam mais valor na sua dedicação do que na sua preparação. Conto a história por este lado honroso, para não mergulharmos na corrupção e na promiscuidade que amiúde desponta no ensino secundário, onde as notas e as passagens valem meticais e outros serviços não venais. Segundo um recentíssimo inquérito, quatro em cada dez raparigas do ensino secundário já foram vítimas de assédio sexual pelos professores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nosso Afonso sempre chegou à escola às 7h. Muitas vezes calcorreou extensos caminhos até pôr o pé nos caducos estabelecimentos de ensino que o viram crescer para o conhecimento. Tudo isto com a bênção de um rigoroso jejum, de fazer inveja ao mais crente entre os crentes na virtude do sacrifício. Às 12h., comia um papo-seco com manteiga ou simples, conforme a vontade do pecúlio. As suas pequenas e renitentes células só receberiam o revigorante beijo dos nutrientes às 18h., quando este tenaz estudante comesse uma bola de echima mergulhada num saboroso caril de folhas e raízes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim, pouco a pouco, com mais ou menos respeito pelas regras, o nosso Afonso atingiu o ensino superior, beneficiando de uma bolsa ou do apoio de alguma instituição. Vive na cidade. Encontrou um anexo de moradia, numa rua central. O apêndice era antes a arrecadação dos Senhores, mas agora, estes elásticos 7m2 fazem o quarto de dormir, a sala de estudo, o escritório, a sala de estar, o salão, a sala de jogos, a sala de fumo e a biblioteca deste jovem Afonso. Paga 20 euros pela arrecadação e sobram-lhe 30 para as refeições de todo o mês. Por isso, e para não prejudicar os hábitos digestivos, mantém a mesma dieta de sempre. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntei-lhe, por necessidade laboral que me atormentava, onde podia eu comprar códigos da legislação moçambicana. “Códigos? Aqui em Nampula? Mas aqui não há nada”. E mesmo assim, ultrapassando os muros e as barreiras que se erigem sem dó, vai fazendo o seu cursinho, vai chegando a Sr. Dr.  &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Nem todos os estudantes moçambicanos são Afonsos, mas não exagerarei se disser que pelo menos 60% dos licenciandos deste país estão familiarizados, total ou parcialmente, intermitente ou eternamente, com o quotidiano afonsino.   &lt;br /&gt;            &lt;br /&gt;Certo homem, destituído de ciência agrícola, jogou num solo saciado e fertilíssimo sementes de qualidade sofrível e viu a sua terra colorir-se de árvores pejadas de frutos deleitosos que atravancaram o seu mirrado bucho. Outro homem, mestre inimitável da arte do cultivo, colocou a mais seleccionada e profícua das sementes no deserto seco e estéril. Definhou na vã espera de que o valioso complexo embrionário vegetal soltasse o recalcitrante e poderoso murmúrio de vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas há, aqui e ali, em Moçambique e em Portugal e por todo o mundo, sementes que, desafiando esta inexorável lei, germinam e crescem ultrapassando os destinos predeterminados, e eu, plantado nas providentes margens de um Nilo, tantas vezes aquém do que devia, sento-me, aprecio o momento e colho o exemplo.             &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, quando um aluno mais expedito me perguntou se eu tinha vindo para passear e ensinar, fui obrigado a pensar nos meu desígnios, na nossa frágil capacidade de pôr a mão e remexer o curso da vida, tal é a infinidade do que escapa ao nosso mais vigoroso intento volitivo, fui obrigado a reflectir sobre tudo isso e acabei por sorrir apenas, convencido, porém, de que vim para trabalhar e aprender.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35757927-116184747622887376?l=negracaixa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://negracaixa.blogspot.com/feeds/116184747622887376/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35757927&amp;postID=116184747622887376' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116184747622887376'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116184747622887376'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://negracaixa.blogspot.com/2006/10/os-primeiros-contactos-com-faculdade.html' title='Os Primeiros Contactos com a Faculdade de Direito da Universidade Católica - 02.10.2006 a 13.10.2006'/><author><name>JMM</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14193583714694419729</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35757927.post-116049146625743780</id><published>2006-10-10T07:41:00.000-07:00</published><updated>2006-10-26T00:22:41.303-07:00</updated><title type='text'>Festa na Comunidade de Gimo, em Nampula - 01.10.2006</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;São 7 h. e 55m. O Sol africano é particularmente madrugador e, por isso, já está quente e alto quando saímos de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na carrinha de caixa aberta, eu e o Arlindo atravessamos o portão traseiro da casa que dá acesso à rua. O grupo de animadores da comunidade de Santa Cruz espera-nos junto à porta principal. "Eh, meus filhos! Vamos subir?", "Bom dia, Sr. Padre. Vamos!". E com a agilidade própria dos jovens impolutos, cinco rapazes, com violas e ritmos intravenais, e sete raparigas, trajadas a rigor com capulanas coloridas, pulam para dentro da caixa da carrinha e acomodam-se. O porta-voz abre a mão e dá duas pancadas secas no tejadilho. Podemos seguir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caminho, passamos pelo mercado das calamidades, pelos cajueiros e mangueiras, pela vegetação irregular onde despontam regularmente os embondeiros. Enfim, repisamos os caminhos trilhados no dia anterior. Avançamos pela estrada de terra batida, inóspita e inacessível a um automóvel convencional. As crianças que habitam com as famílias as casas solitárias no mato, se sentadas e perdidas em jogos rudimentares de autoria própria, acenam à nossa passagem, "Estou a ver-te, vê-me também!".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na caixa da carrinha, o grupo de jovens animadores não cessa a cantoria, sempre naquele tão alegre e difundido registo africano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de trinta minutos de viagem, chegamos à comunidade de Gimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vários grupos de pessoas esperam calmamente o sacerdote, refugiando-se do Sol quente e impiedoso na sombra oferecida pelos cajueiros. Esta disposição gregária é criteriosa e padronizada. Aqui, os anciãos e chefes das várias comunidades presentes. Ali adiante, os jovens, mais à frente, as mamãs. A folhagem de outra árvore acolhe os intermédios, essa gente que já se calça e junta algum dinheiro, que já vai à cidade com frequência, fala português e ocupará no futuro, seguramente, um lugar destacado na respectiva comunidade. Tudo minuciosamente estratificado, sem acasos ou confusões. Cada qual conhece o seu posto e a quem é devida obediência. Salvam-se, como sempre acontece, as crianças, que deambulam desorganizadamente por onde lhes apraz, correndo e pulando, em brincadeiras que não estão ao meu desprovido alcance compreensivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nossa chegada interrompe toda a actividade convivencial. As atenções dirigem-se para os nossos ainda não dados passos, paras as nossas ainda não pensadas decisões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o ancião da comunidade de Gimo quem se dirige a nós. Cumprimenta-nos na sua imutável seriedade cordial, na sua pacatez acolhedora, na sua timidez simpática. Elegantemente enfatuado, orgulhosamente metido naquelas calças e naquela camisa de uma cor inexistente, entre o rosa e o lilás, caminhando sem cerimónias nuns refulgentes sapatos bordeaux. "Tudo pronto, ancião?", "Sim, senhor Padre, está tudo preparado".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De entre o povo expectante, há uns quantos que não aguardam as ordens ou permissões e dirigem-se a nós como pombos que caiem com instinto rapino sobre os amarelos e sumarentos grãos de milho. É difícil explicar o que sente um "Jacinto super civilizado" e bem alimentado quando cruza os olhos com uma criança africana subnutrida. Aquele olhar profundo e curioso, tão sereno e observador, tão cruelmente envergonhado e alegre. A barriga proeminente e arredondada, tenazmente forjada pela fome. As peúgas são grãos de poeira que se depositam gentilmente até cobrirem os seus pés, tão delicados e peculiares. Os calções encardidos, as mais das vezes, são calças largueironas e mal ajeitadas. A sujidade das camisolas denuncia a frequência intermitente do uso. Afinal, a imundice é, não raramente, a delatora da pobreza e da miséria. Enfim, é um cenário altamente invulgar, verdadeiramente único, que nos arrebata de ternura, fulmina de vergonha e nos corta o coração como uma lâmina afiada. Foi de longe o maior choque emocional que já experimentei até hoje. A criança africana é, sem margem para contestação, o ser vivo mais belo e complexo que este planeta irregular nos pode oferecer. E nisto faço-me ditador da estética e dos valores, mas é com conhecimento de causa que tomo esta atitude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto estes pequenos deuses me observam, um adolescente, contando não mais do que 12 anos, dirige-se a mim com fulgor e entusiasmo, fixando-me com um sorriso rasgado e reluzente. Reconheço-o do dia anterior. É um rapaz a quem tínhamos dado boleia para a cidade. Sorrio também. "A bênção, senhor padre". Ergo a mão direita, flicto os dois últimos dedos, faço o sinal da cruz, "Em nome do pai, do filho e do espírito santo. Vai em paz, meu filho".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Arlindo, deitando mão de uma voz viva e determinada, incita todos os convivas a reunirem-se à sua volta. A adesão é geral. O pároco explica o fim e o propósito da cerimónia. Neste dia benze-se pois a nova capela e celebra-se o dia do padroeiro da comunidade de Gimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A construção desta nova casa de deus tem, como tudo, a sua história. Houve tempos em que as missas eram celebradas numa improvisada e rectangular estrutura de adobe coberta por faixas de capim. Mas esta pequena comunidade, nada e criada no mato, com não mais do que 70 membros, achou que podia almejar a mais. Juntou-se dinheiro, chamou-se um pedreiro da cidade, houve mote e impulso organizativo, o Arlindo facultou auxílio ideológico e algum dinheiro, o ancião liderou exemplarmente o seu povo, apelando ao trabalho, à ajuda e à união. E desta dinâmica gregária e unidireccional brotou, como num parto esforçado e sofrido, a nova e simples capela da Comunidade de Gimo. Este pequeno edifício, qualitativamente superior a todas as habitações da comunidade, não é apenas um lugar de deus, é antes a prova acabada de que naquele grupo de seres humanos foi colocada a semente da existência comunitária, aquela que se traduz na partilha do que há e do é necessário fazer para que haja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É este trabalho educativo que admiro profundamente. E os mentores deste crescimento social são, no que me é dado a ver, algumas comunidades missionárias. Em regra, os missionários não se confundem com a população. O nível de vida, a instrução e as exigências são amplamente superiores. Contudo, eles dão parte do seu tempo e da sua vida em prol do crescimento destas gentes. Explicando com mais precisão, não são eles que vivem dentro das comunidades, é antes a sua mensagem de paz, amor, respeito, educação, cultura e liberdade que é lançada como um bálsamo no seio deste povo oprimido pela pobreza e pela exclusão social. Em suma, o povo pobre de Moçambique foi excluído da humanidade, e alguns missionários, humanos de primeira água, chamam o povo de volta, exigem o seu regresso, depositam no ventre desta África acorrentada o sémen da Liberdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A capela ocupa cerca de 100 metros quadrados. A única estrutura interior é o altar-mor, encimado por um crucifixo de pau-preto. São simples as verdadeiras moradas de Jesus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No chão de esteiras, mulheres, homens e crianças ocupam os seus lugares. O Arlindo coloca-se atrás do altar-mor e é ladeado pelos notáveis da celebração, sendo eu, ignorante e deslocado forasteiro, chamado a integrar a alta estirpe do festim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gastaria sem proveito o meu tempo se me dedicasse a descrever uma cerimónia religiosa participada por uma comunidade africana do mato. Nem a minha elevada presunção permite tamanha ousadia. Todavia, não seria justo deixar de enunciar, com prejuízo do rigor, duas ou três particularidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os paramentos são adornados com cores e imagens vivas alusivas a este continente. A celebração da missa é propositada e consentidamente intercalada por cânticos religiosos tradicionais, durante os quais o povo louva deus na sua língua, no seu código, no seu coração. Cada cantar abre um corredor central na massa da assistência e algumas jovens, nas quais se entrelaçam luminosas capulanas, bamboleiam, desenham movimentos únicos, são pequenas chamas bruxuleantes que num repente recrudescem formando labaredas gigantes e incontroláveis. Todo o povo canta e bate palmas, e, nestas esparsas parcelas de existência estes alegres reféns da pobreza gozam o prazer da vida. E eu, tão agnóstico, tão tristemente descrente, mas tão admirador da mensagem de Jesus, eu, que vejo nestes ritos apenas um fenómeno sociológico e antropológico, sou tolhido pelo braço extenso e avassalador da emoção, contemplo este espectáculo uma vez mais e cerro os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cerimónia continua neste ritmo cintilante. Umas vezes fala-se em português e outras em macua. A tradição cristã é misturada com os ritos nativos, é dada a palavra aos vários líderes, que falam ao povo, tal como Jesus pretendia, uma igreja universal e multicultural, um espaço de amor e tolerância, de respeito e de ajuda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A celebração aproxima-se do fim e é chegada a reprodução da última ceia nas vestes da eucaristia. Todos, sem excepção, conhecem de cor as palavras que o Senhor proferiu na sua última refeição. É a aculturação do espírito no seu auge. A minha estupefacção medra sem precedentes. Percorro atentamente aqueles rostos lavados em fé e fervor espiritual. Aqueles lábios salientes e preenchidos articulam verbalmente o penúltimo legado do filho do criador. Entre a multidão absorta na prece, pode ouvir-se a uma pequeníssima criança, sentada, de pernas esguias, olhar vazio e barrigo dilatado, "senhor, eu não sou digno que entreis na minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Findados os rituais, foi a vez de se preparar o banquete dos pobres. Alguns quilos de arroz, echima (farinha de trigo cozida) e oito euros de peixe congelado para cento e alguns comensais. Como se tratava de um dia de festa, cada três tiveram direito a um peixe. O povo come e conversa no chão, ocupando as sombras disponíveis. Toda esta azáfama culinária talhada em potes de barro aquecidos por fogueiras improvisadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a preparação do almoço, um numeroso grupo de jovens junta-se à sombra de uma árvore. Cantam e dançam sem parar, acompanhados por batuques habilmente sonorizados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais adiante, divirto-me a brincar com as crianças. Apetece-me apertá-las, metê-las no coração e guardá-las para sempre. Mas temo que alguém leve a mal uma apropriação em tão larga escala. Por isso limito-me a passar-lhes a mão no rosto e a dar-lhes o meu mais aberto e genuíno sorriso. Elas olham envergonhadamente para o chão e retribuem o sorriso. O pobre tem este clamoroso defeito: agradece muito o pouco que lhe dão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já refeito e tomando consciência de mim, passeio por entre o povo, tentando passar despercebido, mas a minha alvura não me permite a discrição desejada. Procuro usar uma expressão de humildade, de quase servilismo, desejando que não me sintam superior, mostrando-lhes o quão humilde sou, disfarçando a minha hipocrisia, os meus EUR350 de roupa, escondendo a fartura em que vivo desde o primeiro sopro de vida. Sou levemente incomodado por um sentimento indiferenciável, o qual, paulatinamente, toma contornos definidos e uma grandeza esmagadora que me provoca um desconforto maligno e insustentável. Esta pobreza envergonha-me, mostra-me como sou desprezível e egoísta, e é isso que não suporto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, o Arlindo e dois ou três notáveis somos levados para uma pequena casa de adobe onde nos servem, com a esforçada sumptuosidade dos simples, galinha guisada e assada no forno. É provável que este episódio seja avesso a elucubrações axiológicas. Talvez seja a tradição desta gente, e é-o de facto, este paradoxal hábito de oferecer o melhor que têm aos forasteiros ilustres. Todavia, enquanto me dedico afincadamente a descarnar a pata da galinha cafreal, cruzo o olhar com uma criança subalimentada que brinca na rua e, salve-se isso, ponho termo à refeição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As 15h. chegam. O grupo de animadores toma o seu lugar na caixa da carrinha e regressamos a Nampula. O Arlindo explica-me a organização hierárquica destas comunidades e o processo de aproximação dos missionários às mesmas. Nesta página, convenço-me de que o Arlindo estima esta gente, e deus sabe o quanto esta gente precisa de gente que olhe por si.&lt;br /&gt;&lt;!--[if !supportLineBreakNewLine]--&gt;&lt;br /&gt;  &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35757927-116049146625743780?l=negracaixa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://negracaixa.blogspot.com/feeds/116049146625743780/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35757927&amp;postID=116049146625743780' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116049146625743780'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116049146625743780'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://negracaixa.blogspot.com/2006/10/festa-na-comunidade-de-gimo-em-nampula.html' title='Festa na Comunidade de Gimo, em Nampula - 01.10.2006'/><author><name>JMM</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14193583714694419729</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35757927.post-116049129318832870</id><published>2006-10-10T07:39:00.000-07:00</published><updated>2006-10-26T00:20:33.860-07:00</updated><title type='text'>Respirar os Primeiros Ares de Nampula - 30.09.2006</title><content type='html'>&lt;span style="font-size: 12pt; font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;"&gt;Nampula é a terceira cidade do país. Situada no Norte, a 250 Km do Índico, perto da Ilha de Moçambique e do peculiar porto de Nacala. Restam ainda muitas vivendas coloniais, que se dispõem na margem das largas estradas e avenidas, onde cajueiros, árvores­-da-borracha, embondeiros e outras emprestam o verde da vida à letargia do cimento. Hoje fustigada por elevados índices de degradação, Nampula terá sido, na era colonial, um maravilhoso paraíso, um local único para os brancos oriundos da metrópole. Adiante, haverei de reservar tempo para conceder a este lugar a atenção merecida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não dormia desde as 9h. de quinta-feira, dia 28, de modo que não curei de respeitar a sirene disciplinadora do despertador e dormi até às 11h. Depois de breves arrumações, chegou o Arlindo. Almoçámos e propôs-me "Queres ir até uma comunidade ali no mato? Amanhã faremos lá a bênção da nova capela e estamos a preparar a festa. Então, queres ir?". Eu já tinha aceite quando ele terminou o primeiro "queres ir", mas, por educação, só dei o assentimento depois do onde e porquê. "Claro que sim, vamos embora".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saímos de casa. Dois senhores de meia-idade aguardam-nos à porta. É o ancião da comunidade de Gimo, a tal que inaugura a capela, e um ajudante. "Como é, meus irmãos? Vamos comprar as coisas para amanhã?", "Vamos, Sr. Padre".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu e o Arlindo entrámos para a carrinha e os dois festeiros subiram para caixa. Numa enorme estrada perpendicular àquela onde se situa a casa dos Missionários Combonianos, encontrámos algum comércio de rua. Parámos no Peixe da Mamã, onde comprámos uma barra de peixe miúdo congelado que custou 270.000 Meticais (EUR8). Mais adiante, noutro estabelecimento comercial de lona e estaca, aprovisionámo-nos de arroz e óleo. E assim se comprou o necessário para confeccionar o almoço de mais de 100 pessoas. Os Meticais, cerca de EUR15, saíram do bolso do Arlindo. Não compreendi o critério da procedência. Só mais tarde percebi que era o da necessidade. De facto, aquele dinheiro representava um ónus pesado para a comunidade de Gimo, de forma que o Sr. Padre, gentilmente, suportou os gastos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguimos na mesma estrada em direcção ao exterior da cidade, ao mato, à densa florestação que rodeia a cidade de Nampula. Á medida que nos aproximávamos do fim do alcatrão, duas fileiras quase intermináveis de tendas escoltavam os carros que passavam. Eis o Mercado das Calamidades. Este imperdível espaço comercial deve o seu nome a um processo transaccional muito peculiar. Como é consabido, o hemisfério norte, satisfeito e aliviado por ajudar os irmãos sulistas, organiza campanhas de recolha e doação de roupa em desuso. No início, este altruísmo era a resposta a uma tragédia, provocada pela guerra ou por qualquer catástrofe natural. Ou seja, era a reacção do povo bem sucedido às Calamidades que assolavam os desventurados. Uma vez que esta gente vive permanentemente em calamidade, algum benemérito compreendeu que a intermitência das doações prejudicava a procura, e estas campanhas entraram na vida quotidiana das urbes desenvolvidas. E assim, as roupas dos ricos chegam com frequência às mãos dos pobres distantes. Mas esta transferência não obedece às leis da economia. Há aqui um processo em que todos ganham. Primeiramente, o doador que dá alivia o coração, convence-se da sua bondade e decide compensar-se. Entra num pronto-a-vestir sumptuoso e gasta, gasta, gasta. Destarte, ganhou o europeu no alívio da alma e no prazer da aquisição, ganharam os vendedores de roupa, os industriais e trabalhadores têxteis dos países em vias de desenvolvimento, onde são produzidas aquelas roupas. Nisto, os trapos atingem os países subdesenvolvidos em enormes contentores. Aqui, as roupas são vendidas a um distribuidor, que fornece os grossistas e estes os retalhistas e, por fim, a mercadoria atinge o Mercado das Calamidades. O preço é muito atractivo e, em boa verdade, esta é a única fatiota ao alcance desta gente. Ou seja, desafiando as leis do mercado, todos ganham. Mas este paradoxo é alimentado e suportado por um postulado arrepiante: o lixo dos ricos é o ouro dos pobres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A população de jovens vendedores recosta-se preguiçosamente em cadeiras ou no chão. Acenam a quem passa. Se venderem, óptimo, se não, "num tem problema". É assim este povo, descontraído, apático, reverente, humilde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prosseguimos em direcção ao mato, até entrarmos numa estrada de terra batida, uma picada, onde apenas sobreviveria um veículo todo-o-terreno. Lá ao fundo, erguem-se as modestas montanhas que formam uma paliçada natural à volta de Nampula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vegetação é agreste e virgem, inculta, salvo algumas machambas dispersas aqui e ali. Também aqui abundam os cajueiros, as mangueiras, os embondeiros e outras. O verde da vegetação e o castanho-escarlate da terra dominam totalmente o espectro cromático. Estamos verdadeiramente no campo. Era nestas zonas que, na altura da ocupação portuguesa, os autóctones habitavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontramos algumas palhotas, onde habitam famílias numerosas. A taxa de mortalidade infantil é elevada, mas, em compensação, as mulheres começam a procriar com 14 ou 15 anos e têm mais de 7 ou 8 filhos. Moçambique é o país das crianças. Se pensarmos que, na Europa, as mulheres têm o primeiro filho, em média, aos 29 anos, e raramente passam das duas crias, podemos intuir com facilidade, também neste capítulo, o enorme fosso cultural que nos separa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estas casas de mato não têm, em princípio, divisões. São quatro paredes de tijolo de adobe cobertas por capim. Todos comem, descansam e dormem no mesmo espaço. Por vezes, as famílias incluem não só os membros nucleares, mas também sogras e sogros, tias, crianças órfãs da sida, da guerra e da malária. Tem razão pois o Arlindo quando me interpela revoltado "Qual é a hipótese de pudor e de moral desta gente? Que hipótese têm eles de fugir à promiscuidade?".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos à comunidade de Gimo. Dois grupos de crianças e outro de adultos encontram-se sentados no chão, à sombra de algumas mangueiras, escutando as palavras evangelizadoras dos catequistas da comunidade. De bíblia na mão, socorrendo-se esporadicamente da Palavra revelada, estes novos mensageiros propagam a fé, expõem a Verdade. A evangelização é, como se adivinha, trabalho dos missionários, que formam elementos da comunidade para depois os lançarem nas engrenagens de deus. O ateu convicto, sentado no sofá, irado com a religião, aquele indivíduo que invoca a Santa Inquisição para criticar a igreja actual, fará pouco deste trabalho, alegando tratar-se de um desperdício, um massacre ideológico. Todavia, é eticamente profundo o conteúdo das palavras de Jesus e parte da mensagem apela a uma especial organização social. A auto-anulação proclamada por Jesus é, se tarefa de um só homem, a morte certa, a destruição do seu autor. Todavia, enquanto atitude universal e generalizada, é o fim da opressão, da guerra, da exploração, do abuso, e, desta forma, é o começo da verdadeira liberdade, da realização humana, da salvação. E eu, cada vez mais descrente, mais distante da fé, vejo medrar o meu entusiasmo pela teoria moral e ética de Jesus. É o chamamento para uma Revolução calada e pacífica, do espírito, operada a partir do interior de cada qual, através de uma gigantesca inundação de bondade e de amor. E este trajo revolucionário serve a todos, crentes e não crentes, letrados e ignaros, desgraçados e prósperos. E assim sendo, este trabalho de evangelização, se adaptado às mentalidades receptoras, se respeitador das tradições existentes, é, a meu ver, uma pedra preciosa neste rochedo feito estéril pela fome, pela pobreza, pelo analfabetismo, pela opressão e pela exclusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entramos na capela. Enquanto o Arlindo e os responsáveis pela comunidade trocam ideias sobre a festa, tento cativar uma criança com dois anos mal feitos. Bato quase silenciosamente no jambé e olho para ela à espera de uma reacção. Fixa-me, ri-se e, paulatinamente, junta-se a mim, tomando de imediato as rédeas do comando musical. Sentei-me para ficarmos ao mesmo nível e ali nos quedámos, cada um batendo à sua vez, sorrindo um para o outro, e tive, pela primeira vez desde a minha chegada, um momento de plena paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Ó meu irmão, já viste a tua filha? Com um branco estranho, ãh, toda divertida e quê, pôxa, é raro...", "É, Sr. Padre, é verdade, é raro", "É a tua mais velha?", "Não, Sr. Padre, é a primeira".&lt;br /&gt; &lt;!--[if !supportLineBreakNewLine]--&gt;&lt;br /&gt; &lt;!--[endif]--&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35757927-116049129318832870?l=negracaixa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://negracaixa.blogspot.com/feeds/116049129318832870/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35757927&amp;postID=116049129318832870' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116049129318832870'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116049129318832870'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://negracaixa.blogspot.com/2006/10/respirar-os-primeiros-ares-de-nampula.html' title='Respirar os Primeiros Ares de Nampula - 30.09.2006'/><author><name>JMM</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14193583714694419729</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35757927.post-116049103539011510</id><published>2006-10-10T07:34:00.000-07:00</published><updated>2006-10-26T00:16:26.686-07:00</updated><title type='text'>A Viagem - 28.09.2006 e 29.09.2006</title><content type='html'>&lt;span style="font-size: 12pt; font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;"&gt;As partidas, mesmo quando desejadas, sofrem sempre desta enfermidade inexpugnável que se traduz na separação. E isto agrava-se quando se deposita tanto empenho na criação e na manutenção dos afectos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É afogado numa saudade adivinhada que parto para uma vida e um mundo desconhecidos. De facto, a circunstância de a UCM não ter definido convenientemente os contornos desta colaboração deixa-me um pouco apreensivo sobre o futuro próximo. Neste pesaroso momento da despedida, liberando-me de restrições jactanciosas, devo pois confessar que também o medo toma o seu lugar no meu espírito. E a verdade é que, sendo-me legítimo chorar o apartamento, aproveito e derramo igualmente lágrimas de temor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comove-me a atenção que me foi concedida neste momento de despedida. Uma grande festa, muitos telefonemas e mensagens, uma comitiva no aeroporto, um derradeiro adeus paternal e maternal na porta de embarque, um último beijo de amor mesmo antes de entrar no autocarro que me levaria ao avião. Não esqueço os que se lembraram de mim nesta hora que, inusitadamente, me pareceu tão decisiva. É o preço a pagar por uma vida altamente convencional e rigidamente programada. Ao mínimo desvio, somos levados a pensar que poucos estarão a viver uma situação tão peculiar e a submeter-se a tanto risco como nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em suma, sofri e sofro gravemente com a separação, mas consola-me esta perspectiva de realizar um sonho, esse arroubo divinal da realização que, embora não provoque o ocaso da dor, da saudade e do temor, amaina eficazmente os temporais do espírito e as dúvidas da mente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No avião, arrumaram-me num lugar aprazível. No centro, longe da janela e no enfiamento da asa. Sempre que entro num avião, levo comigo a alta probabilidade de uma tragédia. Tendo em conta as estatísticas e o estádio tecnológico, esta convicção é aceitável. "Pois..., de facto...., não, da TAP nunca caiu nenhum. Ah, não, na Madeira, sim, acho que aí houve um que viu pista a mais e só parou no mar, mas é um caso isolado. Viajas na TAP, é?", "Sim, na TAP... É quase certinho que não sobrevivo. Mas tem de ser. Um tipo também não pode ficar no mesmo sítio toda a vida".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acolhe-me um triângulo humano burlesco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao meu lado esquerdo, uma portuguesa emigrada na África do Sul. O sobrepeso, a gargalhada farta e balofa, as unhas pintadas com a exactidão com que a chuva-molha-toldos lava as ruas da cidade, a simpatia, um inglês mais lusitano que o galo de Barcelos e o rigor das contas públicas, enfim, tudo isto junto a fazer prova mais plena que a certidão de nascimento. Esta respeitável senhora lê e exibe um pequeno livro, nomeado "Wanted Angel" por quem o deu à estampa, ou então por algum editor que achou "Hot Springs" pouco apelativo. Elaine Fox, a autora deste repasto literário, deu o seu assentimento a uma capa berrantemente colorida, na qual dois jovens e desnudados corpos se entrelaçam num doce e tórrido bailado. Adivinho, com justeza, um daqueles romances semi-eróticos, nos quais se diz tudo menos o essencial, mete-se a chave à porta mas não se roda a fechadura. Mas é precipitado o meu juízo. Olho de soslaio para o texto e leio com deleite "oh god! Oh god!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No vértice superior do triângulo pontifica uma rapariga aloirada e esbranquiçada, da boca da qual sai um descomplexado português moçambicano. A insónia persistente traz-lhe uma considerável preocupação. Bebeu um copo de vinho ao jantar, outro antes e outro depois. Por fim, colocou sobre tudo uma manta calorosa de conhaque. Sempre que solicita uma bebida à hospedeira, por vergonha do alheio ou por convicção autónoma, adianta "...Sabe?, é que se não bebo, não consigo dormir...". E assim, atestando e reenchendo, escorropichando copo atrás de copo, logrou etilizar-se a preceito. Ri, a voz está mais colocada, guincha, mete conversa com os restantes passageiros, enfim, uma maravilha de se ver. Mas não dorme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A completar este triângulo, do meu lado direito, habita um senhor com o tempo estampado na face. Ri e dorme numa alternância tão frenética que me faz temer pela sua sanidade mental. Há pouco, o comissário de bordo, interessado em dar-lhe a papelada alfandegária, que haveria de preencher e entregar à chegada, perguntou-lhe para onde ia. O vetusto cavalheiro perguntou estremunhado "Ãh?" e depois de escutar novamente a questão respondeu sorridente "Vou para onde me levarem". O comissário de bordo, atónito com tamanha disponibilidade, entregou a este homem sem destino os dois formulários, o da África do Sul e o de Moçambique, os quais foram recebidos com a indiferença de quem, desinteressadamente, não compreende o que está a acontecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A escala em Maputo permitiu-me uma visita perfunctória a esta cidade. As avenidas largas, os resquícios do estilo arquitectónico luso, a degradação e as esporádicas habitações de luxo permitem-me concluir, de forma provisória, que Maputo é uma cidade na qual se perseguiu e destruiu o colonialismo e onde grassa a desigualdade. Voltarei em breve para confirmar esta primeira impressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às 20h. e 23m. do dia 29 de Setembro, mais de 24 horas passadas sobre a partida, aterro em Nampula. Cansado e angustiado, recebo com alegria o encontro com o Arlindo que, com a simpatia de sempre, me recebe no Aeroporto.&lt;br /&gt; &lt;!--[if !supportLineBreakNewLine]--&gt;&lt;br /&gt; &lt;!--[endif]--&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35757927-116049103539011510?l=negracaixa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://negracaixa.blogspot.com/feeds/116049103539011510/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35757927&amp;postID=116049103539011510' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116049103539011510'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35757927/posts/default/116049103539011510'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://negracaixa.blogspot.com/2006/10/viagem-28092006-e-29092006.html' title='A Viagem - 28.09.2006 e 29.09.2006'/><author><name>JMM</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14193583714694419729</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry></feed>
